Hiperfície

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Unificação de numerosas intervenções do autor na Hiperfície

Antifábula

originalmente publicado em Rascunho, em 06/10/2006

Na contramão das fábulas tradicionais, era uma vez um cordeiro de um pêlo muito fofo que um dia resolveu se fantasiar de lobo. O motivo do jogo? Ele não aguentava mais sentir-se bobo diante daqueles suspiros todos das ovelhinhas que conhecia desde muito novo. Para atrair os olhares para si, resolveu evoluir e ser mais atraente dali pra frente.

Um novo jeito no pêlo de cor preta e a fantasia de lobo ficou perfeita, pois mesmo com a aparência de carnívoro arredio, ele continuava sendo muito macio. Como lobo fofo, ele foi à forra com as fêmeas que antes não lhe davam bola. Eis que um dia o animalzinho teve uma idéia: Read the rest of this entry »

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Introdução

Final de 2009. Mp3, Google, YouTube. Palavras que habitam o cotidiano mas que não fariam nenhum sentido há poucos anos – 20, 11 e 5, respectivamente. Termos ícones de um tempo em que a internet é um elemento chave da sociedade. Ícones de um tempo chave da própria internet.

A plasticidade digital permitiu traduzir incontáveis informações em arranjos binários simples, punhados organizados de zeros e uns. A partir dessa redução de complexidade, foram ampliadas e intensificadas as possibilidades de comunicação, catapultando a realidade a uma complexidade multiplicada por googóis. Os limites da percepção do observador se mostram cada vez mais evidentes diante da avalanche de informações disponíveis, sejam elas livros ou blogs, concertos ou videoclipes, grandes produções do cinema ou pequenas novidades virais.

Essa complexidade intensa do digital integra a estrutura de produção e circulação de sentido na sociedade atual, ao mesmo tempo em Read the rest of this entry »

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Um vinte do dez

Poema meu, originalmente publicado em Sacada, em 01/11/2005

Porque você é assim tão meiga
E sobretudo por ser uma menina com uma flor
É que a primavera se faz mais bela
E o mundo acima de tudo lhe tem tanto amor

E se lhe ocorrerem espinhos pelo caminho
Não sofra, haja o que houver
Tenha os sentimentos do mundo como pétalas
Bem-me-quer, mal-me-quer

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Olhos nos olhos

originalmente publicado em Rascunho, em 13/03/2005

Após ler a notícia na íntegra, entrou em transe. O resto do jornal caiu largado na calçada enquanto ele seguiu até o carro. Olhar fixo na manchete, a cabeça ia longe. Só pensava em todos aqueles discos, shows, autógrafos, fotos, entrevistas gravadas no vídeo cassete para ela ver mais tarde, sem falar na novíssima coleção de DVD’s que ele mesmo comprou de presente.

Ora, antes era algo intangível, longínquo. Achava engraçadinho e até contava com galhardia para os amigos. Mas agora estava ali, na cara dele. Havia um caso concreto, público e notório, estampado em capas de revistas.

Nenhum livro de auto-ajuda seria capaz de livrá-lo daquele incômodo. Aquilo o atacava no âmago de seu ser, quebrava as canelas de sua ética, que julgava inabalável, infalível. Não foi trabalhar.

Ao cair da noite, quando ela chegou em casa, assustou-se ao vê-lo no sofá. Mal sabia que atravessara o dia naquela única posição lacônica. Sentado, o corpo curvado sustentando a cabeça baixa e as mãos soltas segurando entre as pernas poucas páginas entreabertas de jornal.

Com o rosto de quem carrega o mundo nas costas, seu olhar faiscou e ele se expôs. Entre lágrimas escorridas, a voz saiu-lhe da boca rompendo o silêncio:

- Você também me trairia com o Chico Buarque?

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Favelas e P2P: juridicidade fora da lei

Em Notas sobre a história jurídico-social de Pasárgada (SOUSA JÚNIOR, 1993, pp. 42-43), Boaventura de Sousa Santos  analisa “as estruturas jurídicas internas de uma favela do Rio de Janeiro“:

A favela é um espaço territorial, cuja relativa autonomia decorre, entre outros fatores, da ilegalidade coletiva da habitação à luz do direito oficial brasileiro. Esta ilegalidade coletiva condiciona de modo estrutural o relacionamento da comunidade enquanto tal com o aparelho jurídico-político do Estado brasileiro. (…) Recorrendo a uma categoria da economia pode dizer-se que se trata de uma troca desigual de juridicidade que reflete e reproduz, a nível sócio-jurídico, as relações de desigualdade entre as classes cujos interesses se espalham num e noutro direito.

O sociólogo observa a prática social jurídica de Pasárgada, a partir da dinâmica de formação e operação das normas e instâncias decisórias, como associações de moradores. O ponto de intersecção com o direito achado na rede, entretanto, está na relação jurídica assimétrica entre as favelas e os demais espaços urbanos.

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Direito: da rua para a rede

Roberto Lyra Filho, citado por José Geraldo de Sousa Júnior em Direito achado na rua: concepção e prática no livro Introdução Crítica ao Direito, 4a ed., Brasília: Universidade de Brasíla, 1993. p.8:

o direito não é, ele se faz, nesse processo histórico de libertação – enquanto desvenda progressivamente os impedimentos da liberdade não-lesiva aos demais. Nasce na rua, no clamor dos espoliados e oprimidos e sua filtragem nas normas costumeiras e legais tanto pode gerar produtos autênticos (isto é, atendendo ao ponto atual mais avançado de conscientização dos melhores padrões de liberdade em convivência), quanto produtos falsificados Read the rest of this entry »

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A História Social do MP3

tradução coletiva do artigo original de Eric Harvey, publicado em 24/08/2009 no Pitchfork

The Social History of the MP3

Se levarmos em consideração todas as músicas novas que dispomos para classificar até agora durante o século 21, certamente nesses últimos tempos nos concentramos muito em duas das maiores estrelas do século 20. Décadas após seus respectivos picos de popularidade, acontecimentos recentes nos lembram que nem os Beatles nem Michael Jackson afrouxaram o domínio sobre a nossa imaginação. No entanto, notei algo especial na nostalgia envolvendo as mais recentes (e provavelmente últimas) reedições do CD dos Beatles e da súbita morte de Jackson: um sentimento de resignação de que as eras em que ambas as estrelas surgiram muito provavelmente não se repetirão. Os Beatles, em 1963-64 e 1967, e Michael Jackson em 1983-4 indiscutivelmente simbolizam para a música pop o que  as Copas do Mundo, as Olimpíadas e os Super Bowls nos EUA significam para os esportes, e o que os grandes sucessos comerciais de verão representam para o cinema: a capacidade de dominar a atenção de todos ao mesmo tempo.

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Raças e cotas

Dificilmente o debate sobre a adoção do sistema de cotas é formulado em termos tão ponderados. Reproduzo abaixo,a opinião de Contardo Calligaris, que traz uma sutil mas fundamental diferença em relação ao pensamento sustentado por Demétrio Magnoli e compania.

O autor concorda com os alegados efeitos sectários da assunção de uma identidade negra coletiva, com a idéia de que isso imprime uma separação na sociedade, mas parte do pressuposto de que o racismo já existe e, portanto, o movimento não cria o precoceito, ele o sublinha.

Sinceramente, não admitir que a separação racial existe no Brasil e merce uma política estatal de combate é tão coerente quanto tentar varrer um bode pra debaixo do tapete. Segue o texto.

São Paulo, quinta-feira, 01 de outubro de 2009

CONTARDO CALLIGARIS


As cotas só afirmam as diferenças com as quais sonham os racistas? Ou podem mudar algo?

PERTENCEMOS A uma única espécie: a espécie humana. Read the rest of this entry »

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Inocência islandesa

texto originalmente publicado em Rascunho, em 28/09/2007

File:Innocence box cover.jpgLembro com gosto a primeira vez em que tive medo. Hoje o aprecio tanto quanto a coragem.

Mas mesmo desfeita a ilusão de ser intocável, a inocência permaneceu, em algum lugar diferente que a neurose só alcança se encontrar um campo fértil onde possa florescer.

Dominar a droga do medo é sentir-se onipotente.

Preservar-me para mais tarde ou dar tudo de mim generosamente? É o medo de perder que drena energia, tranca o peito e desliga o coração.

Abra-se e compartilhe!

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Justiça 2.0 pra todo mundo ver

Com atraso de um mês, está marcada para hoje, às 18h, a assinatura de um acordo de cooperação entre o Supremo Tribunal Federal e o Google, para veiculação gratuita de vídeos da Corte no YouTube. É um passo importante em direção ao novo mundo da cultura digital, mas que traz novas questões para o debate sobre o papel de um “Estado 2.0”.

O YouTube se mantém agregando publicidade ao conteúdo gerado pelos usuários, apostando mais na relevância dos vídeos do que na qualidade. Essa relação sofre um desequilíbrio brutal quando Read the rest of this entry »

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We had it so much better

post. originalmente publicado em Varanda, em 18/09/2006

Sentido horário: Andy, Alex, Ana Laura, Mari, Priscila, Gessika, Sérgio, Daniel Paz e eu.

Sentido horário: Andy, Alex, Ana Laura, Mari, Priscila, Gessika, Sérgio, Daniel Paz e eu.

Caso alguém me pergunte se o Motomix 2006 – o festival mais desorganizado que eu já presenciei – foi bom, eu responderia: “Sabe quando você está no camarim e os caras da banda são super gente boa?

Sério, inacreditável como uma incerta na FunHouse foi decisiva pro destino dessa viagem a São Paulo. Read the rest of this entry »

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