Hiperfície

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Unificação de numerosas intervenções do autor na Hiperfície

Memórias cariocas

originalmente publicado em Sacada, em 31 de janeiro de 2006

Na calçada, o trajeto cambiante de tantas sombras a andar
Noutro ritmo, o vai e vem irregular das ondas sobre o mar
Muito mais calor e movimento e desejo do que tempo e dinheiro para poder aproveitar

Na areia da praia acumulando energia enquanto o dia durar
Os corpos são geradores de beleza movidos a bateria solar
Que descarregarão toda sua potência dançando noite adentro em busca de um par

Os dias se atropelam na semana que vai passando sem parar
E as alegrias vão se empilhando como sobremesas do jantar
Mas cada boa memória vivida será uma passagem da viagem de volta para esse lugar

Arquivado como:Sacada , , ,

Foi pro escurinho

Estou ouvindo incessantemente “Out At The Pictures“, primeira faixa do “Made In The Dark“, novo álbum do Hot Chip.

Comparando com os trabalhos anteriores, percebo forte a influência da nova casa da banda, a DFA Records do James “LCD Soundsystem” Murphy.

A letra não é lá grande poesia, mas a batida é muito mais pista de dança do que a “Over And Over“, sucesso do álbum anterior, “The Warning“.

Eles ainda não acertaram a mão na capa, mas o som está excelente. Eles definitivamente se tornaram um banda mais consistente, numa evolução do tipo Pato Fu, sem perder a criatividade, mas dando mais cadência pras experimentações.

It’s on every street
It’s fucking cheap
Sometimes you find up in your mind

Are you at the pictures
Or out at sea?
It’s better this way
Trust you, believe me

Whe-the-whe-the-whe-the-whe-the-weather, weather, weather, weather
There’s a whole world in there
Whe-the-whe-the-whe-the-whe-the-weather, weather, weather, weather
Just don’t stop and stare
Whe-the-whe-the-whe-the-whe-the-weather, weather, weather, weather
You will find gel there
Whe-the-whe-the-whe-the-whe-the-weather, weather, weather, weather
There’s a hole in the world there

We like it for what we just got
It’s better still, it’s something hot

Out at the pictures
I cannot see
It’s better this way
trust you, believe me

Whe-the-whe-the-whe-the-whe-the-weather, weather, weather, weather
There’s a whole world in there
Whe-the-whe-the-whe-the-whe-the-weather, weather, weather, weather
Just don’t stop and stare
Whe-the-whe-the-whe-the-whe-the-weather, weather, weather, weather
You will find gel there
Whe-the-whe-the-whe-the-whe-the-weather, weather, weather, weather
There’s a hole in the world there

Arquivado como:varanda

Quem liga pra vírgula Oxford?

Segundo a Wikipédia, a vírgula Oxford, vírgula Harvard ou vírgula serial é a vírgula usada imediatamente antes de uma conjunção que precede o último item de uma lista de três ou mais itens. A falta de consenso entre escritores e editores quanto ao seu uso, sendo mais comum no inglês do EUA que no britânico.

A par(tir) dessa questão gramatical, sugiro a musiquinha “Oxford Comma“, do pessoal legal do Vampire Weekend, uma banda que ficou famosa pela internet e que faz um estilo por eles denominado “Upper West Side Soweto”, mas que eu explico como um Gilberto-Gil-encontra-Arctic-Monkeys-em-Nova-Iorque:

Who gives a fuck about an oxford comma?
I’ve seen those english dramas too, they’re cruel

So if there’s any other way to spell the word
It’s fine with me, with me

Why would you speak to me that way
Especially when I always said that I
Haven’t got the words for you
All your diction dripping with disdain
Through the pain I always tell the truth

Who gives a fuck about an oxford comma?
I climbed to Dharamsala too, I did

I met the highest lama
His accent sounded fine to me, to me

Check your handbook, it’s no trick
Take the chapstick, put it on your lips
Crack a smile, adjust my tie
Know your boyfriend, unlike other guys

Why would you lie about how much coal you have?
Why would you lie about something dumb like that?
Why would you lie about anything at all?
First the window, then it’s to the wall
Lil’ Jon, he always tells the truth

Check your passport, it’s no trick
Take the chapstick, put it on your lips
Crack your smile, adjust my tie
Know your butler, unlike other guys

Why would you lie about how much coal you have?
Why would you lie about something dumb like that?
Why would you lie about anything at all?
First the window, then it’s through the wall

Why would you tape my conversations?
Show your paintings at the united nations
Lil’ Jon, he always tells the truth

Arquivado como:linguagem, varanda

A linguagem aberta

Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível que lhe deres: Trouxeste a chave? – Carlos Drummond de Andrade

Questão que me ocorreu outro dia, durante o trabalho.

Leiam a Súmula nº 136 do Tribunal Superior do Trabalho:

JUIZ. IDENTIDADE FÍSICA. Não se aplica às Varas do Trabalho o princípio da identidade física do juiz.

O que me deixou perplexo: descontextualizado o verbete, abre-se espaço para uma interpretação em sentido diametralmente contrário ao que o motivou. A chave é saber o que o texto deixa de fora quando fala em “varas do trabalho”, se as outras instâncias trabalhistas, os outros órgãos da Justiça do Trabalho; ou as varas que não compõem essa Justiça Especial, que são pertencentes à Justiça comum.

É que recebi um recurso com o argumento de que a Súmula 136 admite a aplicação do princípio da identidade física do juiz nos tribunais do trabalho. A parte recorrente sustentava que esse princípio havia sido violado e pretendia reformar uma decisão.

Todavia, o princípio da identidade física do juiz nunca foi aplicado na Justiça do Trabalho, e o significado da norma é dizer que ele não se aplica na Justiça do Trabalho. E a redação se limitou a mencionar as varas, porque, pelo próprio conceito do princípio, ele só se aplica a instâncias decisionais monoráticas, em que o juízo é de uma só pessoa, nunca a órgãos colegiados, onde o jugamento é coletivo.

Segundo o princípio da identidade física do juiz, a decisão deve ser proferida pelo próprio instrutor da causa, por quem dirigiu a produção do convencimento a respeito da matéria fática. Nos órgãos colegiados, a decisão é partilhada entre os que participam do julgamento, o que permite inclusive que o juiz responsável por primeiro analisar o processo fique vencido no julgamento, ou seja, que sua tese não seja acolhida.

Pois bem, até 1999 na justiça do trabalho havia uma estrutura tríplice mesmo nas varas, que contavam com um juiz “togado”, concursado especialista de direito, e dois outros representantes das classes litigantes, um pelo lado do empregador outro pelo dos empregados. Daí formou-se a exceção de que a mudança de um juiz classista que pariticipara da instrução não forçaria a necessidade de nova instrução, podendo o caso ser julgado sem ferir o princípio. Daí, a Súmula.

Mas basta se “esquecer” de que o princípio se vincula ao fato de que as decisões são monocráticas e “lembrar” que a Justiça do Trabalho não se limita às varas, para se interpretar que a Súmula nº 136 do TST, ao restringir a inaplicabilidade às Varas do Trabalho, admite a aplicação do princípio da indentidade física do juiz nos Tribunais do Trabalho.

Como seria um saco explicar isso no processo, usando linguagem adequada aos autos, para o meu trabalho coletei decisões que explicavam essa confusão da parte e indiquei como precedentes. Mas como estava perplexo, resolvi escrever esse textinho aqui mais solto.

Arquivado como:direito, linguagem

Igreja Católica e Pedófila Romana

originalmente publicado em Rascunho, em 17 de fevereiro de 2004

Charge de Sylvio Ayala, publicada no Cabruuum

A TV mostrou que estavam sendo feitos cálculos de quantos padres já haviam violentado crianças. Uma determinada conta apurou 11 mil crianças nos últimos 30 anos.

Ao mesmo tempo, mas sem revelar dados quanto a crianças, a Igreja revelou já ter gasto 85 milhões de dólares com indenizações (o que não é problema, já que fatura 7 bi).

Fez a média na calculadora que não usava desde o segundo grau: U$ 7.700 pra cada criança.

Olhou de lado pro irmão, então estudante de catequese. Será que nunca?

Ele mesmo nunca tinha sido muito chegado nesse lance de Igreja. Gostava de latim apenas por fins etimológicos, e olha lá.

Arquivado como:Rascunho, microconto

Surpresas agradáveis

originalmente publicado em Rascunho, em 07 de março de 2004

Pouco antes de nove horas da manhã de uma quarta-feira, levava sua mãe ao trabalho. No som do carro, “A Flor“. Ela pergunta “que banda é essa”. Ele assume o ar de desprezo e responde “Los Hermanos“, certo de que ouviria um displicente “não conheço” ou no máximo um “tem ‘Anna Júlia‘ nesse CD?”. Ela não apenas diz que acha legal o som da banda, mas ainda que nas últimas férias os viu tocar com Os Paralamas do Sucesso no Rio de Janeiro. Feitas as contas, perceber que até então ambos tinham visto o mesmo número de shows do Los Hermanos. E, considerando que desde o Porão do Rock de 2003 já haviam se passado oito meses, a lembrança dela era bem mais recente.

Nove e meia, Conjunto Nacional ainda vazio, saindo das Lojas Americanas para ir ao caixa automático do Banco do Brasil, extremamente irritado. Só depois de enfrentar toda a fila lembrou que com um só cheque não poderia pagar a conta da loja e a do cartão. Na saída da loja, passando sob um ridículo cartaz do Rouge e ao lado de uma banca de micro-celulares de preços hercúleos, percebeu que no sistema de som da loja rolava “Bring Me To Life“, do Evanescence. Lembrou sem saudade dos dias em que ouvia a doméstica acompanhar entusiasmada Backstreet Boys no rádio.

Arquivado como:Rascunho, microconto

Hipster

originalmente publicado em Rascunho, em 12 de junho de 2007

Adjetivo, que, reformulado nos anos ‘90 e ‘00, indica, entre outras coisas, o estereótipo dos integrantes e devotos de indie rock, música eletrônica downtempo e estilos musicais correlatos, frequentadoes de festas pós-festa (em inglês after-party), bem como os que seguem moda – aqui incluídas as calças baixas o suficiente para mostrar os quadris (hips, em inglês)- e demais gostos associados, não sem uma certa carga pejorativa atualmente, por conta do esvaziamento se seu valor de contracultura, mas que Read the rest of this entry »

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Garçonete

WaitressDesde o dia 13, a FOX lançou direto no DVD “Garçonete“, que tem como protagonista a linda Keri “Felicity” Russell, em excelente performance. Vi essa comédia/drama/romance no cinema em Amsterdam e pergunto: esse filme já passou nos cinemas brasileiros?

Apesar da primeira má-impressão que tive com os slogans e o título meio bobo, achei uma história com uma mensagem muito legal, extremamente bem contada e com atores muitos bons, e que ainda conta com Cake na trilha sonora. Olha, em tempos do super-excelente Juno, uma excelente pedida para manter o nível.

Na verdade, eu tô achando é que a Garçonete foi contratada para servir o pessoal da Lista Negra.

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A hiperfície reconhecida juridicamente

Aos poucos, a internet vem ganhando respaldo jurídico como meio de publicação. Em julgamento recente, o Presidente do Tribunal Superior do Trabalho pronunciou-se a favor da presunção de veracidade de uma certidão obtida pela rede, contra a necessidade de que o documento seja antes autenticado. Mas apenas no ano passado o Código de Processo Civil passou a admitir que, entre outros documentos, cópias de decisões obtidas em sites dos Tribunais sejam utilizadas nos processos. A coisa vai lenta, mas vai indo.

Ora, a publicação em um meio físico é tão confiável quanto a publicação virtual. Embora as fraudes tenham possibilidades distintas, o risco é o mesmo. Por ter familiariedade com o manuseio de autos, ouso dizer que a fraude nos meios digitais deixa mais rastros e tem mais chances de ser detectada.

Da pintura rupestre ao twitter, toda a mídia é comunicação não presencial. Não há justificativa consistente para cindir a hiperfície, privilegiando os seus primórdios em detrimento de suas inovações.

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Oferta de Verão

poema originalmente publicado em Sacada, em 07 de fevereiro de 2005

Escute, venha comigo, segure minha mão
Vamos ser mais que amigos, vai ser mais que bom

Que tal passar o dia vendo o dia passar
Deitados sobre o capô do meu velho jaguar

E das estrelas à noite nem vamos precisar
Vamos juntos fazer nossos olhos brilhar
Mais que qualquer supernova
Como um raio noturno de aurora

Dormindo juntinhos, quem sabe, poderemos sonhar
O mesmo sonho lindo, logo antes de acordar

Não me faça ajoelhar por algo de que ambos vamos gostar
É uma oferta de verão, impossível dizer não

Nem quero fazer joguinhos de criança, isso eu não sou mais
Tudo que quero é uma linda dança em que deixemos de ser um par

E de música nenhuma vamos precisar
Vamos fazer sons que serão tão bons
Abrirei seu embrulho na certeza de encontrar
Muito mais que sabor em um doce bombom

Não faça doce, acho que você já é o bastante
Não faça pose, assim só fica mais interessante
Não se engane, não diga que não vai rolar
Não se encane, apenas deixe o amor te ganhar

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