Blogs e a grande mídia: alternativa virtual para uma democracia real

Artigo originalmente publicado em agosto de 2007, no jornal Constituição & Democracia nº  15 – Democracia e Mídia

bgmHoje os computadores formam uma rede de comunicação robusta e capilarizada que conecta a diversidade. Mas diante da diferença, volta e meia a Internet serve de veículo para manifestações antidemocráticas (casos de homofobia, xenofobia, racismo etc.). Não são problemas exclusivos do mundo virtual, e sim replicações intolerantes de atitudes nocivas do mundo presencial. O desafio é fazer com que essa revolucionária forma de comunicação possa, em vez de violar, viabilizar os ideais de justiça socialmente construídos na modernidade.

Os grandes grupos comunicativos são oligopólios econômicos, cuja impressionante capacidade de informação tem em contrapartida limitações nem sempre perceptíveis. Desde a inconveniência de contrariar um patrocinador até a distorção de fatos políticos, a sua atuação é sujeita a restrições – em vários níveis não evidentes – pelo capital privado que banca seu desenvolvimento, inclusive na internet. Por isso, os blogs, e muitos outros tipos de sites de conteúdo gerado por usuários, constituem uma inovadora alternativa para a circulação de informações, pois giram as posições de emissor e receptor, renovando a relação entre espectador e mídia.

Paradoxalmente, um forte indício do potencial comunicativo dos blogs é exatamente sua presença em todos os grandes sites, alimentados por eminentes profissionais de comunicação. Alguns, sem grande surpresa, apenas exercitam mais livremente uma postura reacionária. De outro lado, aliando genuinamente a liberdade da forma com à do conteúdo, vários movimentos sociais se valem do universo virtual para ampliar suas frentes de atuação. Iniciativas como o Global Voices, o coletivo Intervozes e o Centro de Mídia Independente, por exemplo, direcionam- se à produção livre e combativa de informações que façam frente às mídias empresariais ou capitalistas. É por esse caminho que a rede pode promover uma comunicação difusa e livre, capaz de dar voz às inúmeras realidades, freqüentemente alijadas pelos grandes meios, seja por carecerem de apelo à audiência, seja por afrontarem interesses.

Em outras palavras, essa multiplicidade comunicativa viabilizada pela internet não pode ser vista apenas como fonte de informações para avaliar se a grande mídia retrata bem ou mal o mundo, para aferir o grau de aproximação da verdade. A comunicação não deve ser tomada como correspondente da realidade, mas como processo de sua construção. E aqui está, então, o maior potencial da comunicação difusa. A pluralidade deve ser pensada como um caminho para legitimação de um maior número de visões de mundo, como uma possibilidade ampliada do exercício pleno da alteridade. Cada página virtual que funciona como meio de comunicação, individual ou coletiva, noticiosa ou opinativa, constitui ela própria uma instância de busca pela democracia comunicativa, pois representa a luta por uma posição interpretativa.

Nesse novo palco, as relações social têm uma nova dinâmica. A grande mídia, que hoje se movimenta para manter sua relevância, sujeita-se a numerosos observadores que lhe fazem uma crítica plural, necessária e, graças à rede, possível. Assim como as notícias fervilham mais rápido na hiperrealidade, as respostas sociais podem ser velozes e disseminadas, e podem se contrapor à circulação de desinformações.

Para os perigos da comunicação eletrônica, não são necessárias inovações. Os riscos da intolerância são os mesmos na realidade não virtual. Por isso mesmo, quanto mais as relações na internet forem tratadas de forma séria em toda sua amplitude, e não como um mundo paralelo, aberto à impunidade, mais elas se revelarão um importante componente da sociedade, um espaço público para as práticas difusas alcançarem um significado político.

Os ideais sociais fixados na Constituição são um construto histórico não óbvio, resultado de lutas e conquistas que demandam atenção permanente. Sendo a imprensa um quarto poder no controle das instâncias estatais, é promissora a abertura de portas virtuais para um participação popular democrática real. Trata-se de uma rede, não de computadores, mas de pessoas, que se comunicam sem cessar, em volume e velocidade crescente, de forma mais e mais horizontal.

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12 comentários sobre “Blogs e a grande mídia: alternativa virtual para uma democracia real

  1. Pingback: Direitos das minorias: Necessidades versus lógicas abstratas | HIPERFÍCIE

  2. Pingback: Blogs e a grande mídia: alternativa virtual para uma democracia real. Por Paulo Rená | Observatório da Cultura

  3. Bem bacana, o artigo.
    Particularmente não gosto da tese “mídia= a quarto poder”. Prefiro pensar a comunicação mais como meio, concatenada aos poderes, numa relação de influência mútua. O que seria da esfera política sem a comunicação? A lógica comunicacional e seus habitus acabaram por influenciar a forma que fazemos política e vice-versa.
    A redes de certa forma reconfiguraram esse lógica e demandam da política que ela seja cada vez mais conversacional. O bom é que nas redes não somos meros atores da sociedade do espetáculo, da politica comunicacional, podemos combatê-la ou relativizá-la.
    abs.

    • Sim, essa é uma premissa com a qual não compartilho inteiramente, e que por isso está no artigo na forma condicional: “sendo a imprensa um quarto poder”, ou seja, “se considerarmos que” =)

      O foco aqui é no uso da Internet como caminho para a democratização mais intensa da sociedade, tanto na mídia, como na política, como no direito e em tudo o que puder ser comentado pela rede.

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  7. PR,
    Muito legal seu artigo. Tirando a tintura avermelhada, o esqueleto do texto é perfeito.

    Gostei em especial dessa parte aqui:

    “A pluralidade deve ser pensada como um caminho para legitimação de um maior número de visões de mundo, como uma possibilidade ampliada do exercício pleno da alteridade. Cada página virtual que funciona como meio de comunicação, individual ou coletiva, noticiosa ou opinativa, constitui ela própria uma instância de busca pela democracia comunicativa, pois representa a luta por uma posição interpretativa.”

    e aqui tb:

    “Para os perigos da comunicação eletrônica, não são necessárias inovações. Os riscos da intolerância são os mesmos na realidade não virtual. Por isso mesmo, quanto mais as relações na internet forem tratadas de forma séria em toda sua amplitude, e não como um mundo paralelo, aberto à impunidade, mais elas se revelarão um importante componente da sociedade, um espaço público para as práticas difusas alcançarem um significado político.”

    Eu sou de direita, vc de esquerda. A free-web tornou possivel o debate e a “briga virtual”. Não podemos deixar que este espaço seja dominado por qualquer dos lados.

    Steve Jobs tem planos de dominio… tem lido sobre isso ?

  8. Eu acho triste porque atualmente, quanto mais a imprensa denuncia menos os governantes parecem se importar com o opinião pública. A punição ainda é parca e o povo é o último na escala das prioridades.

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