Eu não sou gay. Eu RESPEITO a diferença.

esse texto é fruto de uma rica discussão iniciada no Facebook com o amigo Pedro McDowell e desenvolvida com outras pessoas, às quais agradeço imensamente pelo apoio no desenvolvimento das ideias abaixo

Símbolo do projeto "Eu sou gay"

A campanha “Eu sou gay” tem por intuito chocar. A ideia é sensibilizar para a crueldade do contexto da homofobia. Noticiada em sua violência quase dia sim dia não na grande mídia, a homofobia está presente de inúmeras formas em diversos graus, amplamente difusa na sociedade brasileira. Mas eu estou convicto de que a intenção da campanha não é bem traduzida na expressão escolhida. O respeito à liberdade sexual não precisa passar pela identificação com a outra pessoa, mas sim, justamente, pelo respeito ao direito de ela ser diferente.

Cito um argumento razoável, levantado a favor da expressão “eu sou gay”:

O # eu sou gay vem da tradição do “somos todos x”. Como “eu sou mumia” para a libertação do Mumia, ou “eu sou grupo xyz perseguido”. Quer dizer, parte da minha experiência humana é partilhada com esta pessoa, e eu me coloco ao lado dela. Re…conheço nossa experiência comum, e ferí-la é me ferir, atacá-la é me atacar. Só isso. solidariedade e compromisso. Quer dizer, em outras palavras que a luta pelo reconhecimento dos direitos de quem tem escolhas afetivo-sexuais diferentes das nossas não é “problema deles”. É problema de toda a sociedade. #Eu sou gay.

Eu entendo completamente a ideia (que de alguma forma replica a preocupação do poema da John Donne, que diz “não pergunte por quem os sinos dobram, eles dobram por ti“) e apoio a perspectiva de se preocupar com aquilo que de ruim acontece para além do meu próprio umbigo. Mas se, sim, eu faço parte da humanidade, é por isso mesmo que eu não me confundo com as outras partes.

Mesmo em toda a minha complexidade, eu não sou branco, mulher, índio, pobre, excluído digital, analfabeto, homossexual, vítima de crime sexual presidiário, aidético, deficiente. Sinto dor  alheia, eu me comovo e tento fazer algopara que o preconceito não atrapalhe a vida alheia. Mas eu não sou parte, eu estou “de fora” da dor que é dessas pessoas.

Sou negro, sou consumidor, sou brasileiro, sou jovem, sou internauta, sou tecnófilo, sou egresso de universidade pública, sou servidor público federal, tenho renda alta, sou homem, sou heterossexual. Esses são os papéis em que eu posso sentir dores. Nas outras, só posso me imaginar no lugar das pessoas. E essa diferença é brutal.

A solidariedade, pela outra pessoa, aquela que não sou eu, exige o respeito à diferença da outra pessoa, ao direito de ela não ser igual a mim, ou ao que eu vejo como padrão. Eu sou hétero e respeito os que não são. Acho que essa frase tem muito mais força social do que dizer eu tb sou gay, se eu, afinal, não sou.

Diferentemente do mote “eu sou gay”, defendo que a ideia de que “eu não sou minoria xis mas preciso respeitar o direito dessa minoria“, tem poder argumentativo mais inclusivo. Essa ideia pode ecoar no coração das pessoas hétero e que não são apenas homossexuais enrustidos (como frequentemente se as ataca); no coração das pessoas que são heterossexuais e não respeitam a diferença de quem não é héterossexual. Proteger o direito à diferença como base de nossa pluralidade social, em vez de combater com  a arma de identificação com a dor alheira, representa um chamado democrático a que cada pessoa, sem abrir mão de sua individualidade, respeite a liberdade sexual das outras pessoas com quem compartilha uma fração da existência desse mundo.

14 thoughts on “Eu não sou gay. Eu RESPEITO a diferença.

  1. Pingback: Direitos das minorias: Necessidades versus lógicas abstratas | HIPERFÍCIE

  2. Pingback: Eu sou gay. Eu sou hétero. « Queer and Politics

  3. Pingback: Reflexão sobre a campanha “Eu sou gay” « Nós

  4. Entendi o ponto de vista do Paulo e assino embaixo de alguns posicionamentos. Mas, no que se refere a campanha propriamente dita, concordo com você, “Zé”.
    Acho que a ideia de dizer #eusougay não deixa de passar pelo contexto de respeito a diversidade que você (Paulo) citou acima, inclusive, é essa a proposta. O #eusougay é apenas um “chavão”, o “slogan” que, aliás, foi bem definido e justificado no texto de sua idealizadora.

    Abraços,

  5. Eu discordo, democraticamente, pelo seguinte: o respeito passa pela identificação.

    No caso da homofobia, como no caso do racismo, a agressão parte justamente de seres (humanos?!) que veem os gays (ou negros ou mulheres) como seres inferiores e não como iguais.

    Além do choque inicial do ‘eu sou gay’ ele também traduz uma identificação algo como ‘eu não sou mas poderia ser’ só que com um tom mais chamativo, com intuito óbvio…

    Abços

    • Óbvio pra você e pra mim, que concordamos com a ideia de que a homofobia é um absurdo. É um discurso que ecoa em quem com ele já concorda. O famoso “chover no molhado”.

      Você acha, sinceramente, que ele consegue comunicar algo para alguém que seja um convicto homofóbico? E alguém que seja um homofóbico “só de brincadeira”?

      Eu tenho certeza de que não. A ideia da campanha é boa e sua pertinência me parece inegável, mas a frase “eu sou gay” não funciona para o propósito desejado.

  6. eu acho que o importante desta frase especificamente é que ao fazer as pessoas falarem “eu sou gay” mostra p cada pessoa o peso dessa identificação. Tem gente que não consegue. Tentei convencer alguns amigos a tirarem a foto junto comigo ou em separado e apenas uma amiga topou. os outros acharam muito forte colocar a imagem deles junto com um cartaz dizendo “eu sou gay”…eles não são homofóbicos, mas não conseguem dizer “eu sou gay” porque tem medo de que alguém ache que eles são. Sacou o dilema?

    Eu espero que a sua recusa em dizer “eu sou gay” não tenha nada a ver com isso. Mas, fique certo, para muitas pessoas isso é bem difícil.

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