O Partido Pirata do Brasil e a dicotomia entre direita e esquerda

melhor um nome ruim do que uma política ridícula - Partido Pirata do Brasil: conhecimento, cultura, privacidade e transparência: rumo a convenção nacional

A classificação da atividade política institucional se pauta tradicionalmente pela dicotomia entre direita e esquerda. Entendo que esse binômio precisa ser superado, porque ele não explica o mundo. No Brasil, o PV e o PSOL, por exemplo, não conseguiram fazer essa mudança de perspectiva. Acho que o PPBr PIRATAS pode fazer essa superação. Esse é meu argumento. O resto abaixo é só uma repetição disso, com mais palavras.

‘Esquerda’ e ‘Direita’ são uma forma comum de classificar posições políticas, ideológicas, ou partidos políticos. (…) A origem dos termos remonta à Revolução Francesa, na qual os membros do Terceiro Estado, que almejavam uma mudança na forma de governo vigente, se sentavam à esquerda da assembléia, enquanto os do clero e da nobreza, que desejavam a conservação da forma de governo, se sentavam à direita. (Esquerda e Direita (política), 16/06/2012).

Uma postura é ser de direita ou esquerda, e nesse contexto se assumir ou se ocultar. A pessoa pensa de um forma limitada a essas caixas, a esse modelo de mundo, ela vê de fato a realidade em azul ou vermelho, em direita ou esquerda. Ela admite que há meios termos, mas os pólos são esses: direta de um lado, esquerda do outro. E nessa linha, entre esses dois pontos, ela se esconde aqui ou se mostra acolá.

Outra postura é a de entender que esse binômio não dá conta da realidade política, seja no Brasil, seja nos EUA, ainda que ele faça sentido. Olhando para os conflitos que vêem à tona e para os conflitos que sempre existiram mas eram silenciados; olhando para as emergências e para as urgências (termos de Boaventura de Sousa Santos), é possível ver que separar o mundo político em direita e esquerda é olhar para o mundo tridimensional num limite unidimensional, é olhar a esfera com uma régua, que só mede a reta que vai da direita para a esquerda.

O Partido Pirata do Brasil pode cumprir uma promessa que o Partido Verde nem sequer chegou a propor e que passa ao largo da defesa ética que fez nascer o PSOL. O PV não pode cumprir essa promessa porque sua conformação gerou um grupo de pessoas sem uma identidade coletiva coesa. São um amontoado de retalhos que não formam uma colcha. Dois fatos ilustrativos: o partido perdeu sua candidata a presidente nas últimas eleições e o nome “verde” não encontra nenhuma relevância entre os grupos que lutam pela efetiva defesa no meio ambiente na Rio+20. O PSOL segue restrito ao ideal da luta socialista do séc. XX e confia na promessa de que a chave para os problemas do País é um partido de esquerda ético. Pretende ser um PT renovado e resgatar os bons valores que o fizeram surgir do forte e legítimo movimento de trabalhadores por seus direitos no fim dos anos 70. Já o Partido Pirata coloca uma questão que nem a direita nem a esquerda conseguem resolver a partir de suas caixinhas, de suas visões de mundo lineares.

Na bandeira pirata, existem a questão da liberdade de acesso à cultura e ao conhecimento, a questão da defesa da privacidade das pessoas e uma demanda por transparência. Esses três pontos não esgotam a pauta do PPBr PIRATAS, mas são centrais para o PPBr PIRATAS, e são suficientes para mostrar que pensar o mundo em direita e esquerda é insuficiente. Esse binômio não responde, por exemplo, se compartilhar livros é ou não um direito dos leitores. Há bons argumentos de direita e de esquerda tanto a favor da quanto contra a manutenção do monopólio do autor sobre sua obra intelectual. Não basta ser de esquerda ou de direita, é preciso pensar além da relação entre capital e trabalho, da relação entre acumulação e mais valia, da relação entre lucro e salário. É preciso incluir novas figuras sociais que não exercem nem o papel de patrão nem o papel de empregado. Uma delas é a pessoa que lê. Diferente dos patrões do entretenimento e dos trabalhadores da arte, os interesses de quem lê nunca tiveram sua representação política formalizada.

Nunca houve no Brasil um partido político que considerasse, nem sequer em suas premissas teóricas, a defesa dos direitos das pessoas que acessam às obras literárias na atividade de leitura. Há uma redução à problematização do consumo, que hoje serve como trincheira mínima de garantia de direitos de quem compra um produto. Mas nem nesse limite, há um partido político que hasteie a bandeira de quem consome. E considerar a cidadania apenas pela via do consumo é muito pouco. Além de valorizar a posse de bens em si mesma, essa perspectiva não abarca o fato de que cada vez mais as pessoas são tanto consumidoras quanto produtoras de informação. Não apenas na perspectiva teórico de que quem lê dá significado ao texto, ou de que a beleza está nos olhos de quem vê; na prática mesma, quem lê um texto digital facilmente reproduz esse texto ou sobre ele produz anotações, quem ouve uma dezena de músicas cria uma nova música única com a junção de todas as outras, quem vê um vídeo insere um comentário ou mesmo faz uma edição bem humorada que ganha fama. A distinção entre consumir e produzir é limitadora, porque parte do binômio trabalho e capital, do par conceitual direita e esquerda.

A linha que diferencia consumir de produzir foi borrada e não adianta tentar traçar de novo. E os borrões só crescem. Pensar essa realidade nova pela lógica linear direita e esquerda não permite uma classificação coerente da atividade política. É urgente que surja um partido que possa fazer a defesa dos interesses que estão em outro plano, que extrapolam a simplificação entre direita e esquerda. No que depender de mim, o Partido Pirata do Brasil vai nascer com o compromisso de cumprir essa promessa. E tenho muitos motivos para achar que não estou sozinho nessa.

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9 thoughts on “O Partido Pirata do Brasil e a dicotomia entre direita e esquerda

  1. Concordo com a posição do autor, mas gostaria de lembrar que o PIRATAS sofre influência excessiva de pessoas de esquerda. Prova disso foi a direção do partido ter se posicionado contra o projeto que permitia aos psicólogos tratarem homossexuais e em defesa do PLC 122 que claramente limita a liberdade de expressão. Um partido que se coloca como defensor da privacidade não pode se dar ao luxo de defender projetos que visivelmente são contrários a ela. O coletivismo esquerdista sempre será contrário as liberdades individuais, é algo insuperável que está em sua essência. Até os PIRATAS se colocarem como verdadeiros defensores da liberdade, eu ficarei apenas observando.

  2. Até onde sei, ao contrário do que dizem as tags:
    - o partido pirata não defende oficialmente o compartilhamento de arquivos, mas possui um projeto muito mais amplo, que em teoria poderia revolucionar a democracia brasileira.
    - o partido pirata, se realmente lutasse pela privacidade, não faria reuniões, nem teria todos os membros devidamente cadastrados, com todas as informações disponíveis, incluindo nome completo, telefone, endereço, fotos, etc, etc, etc, em um site de uma empresa americana coletora de informações.

    Conheço o pessoal do ppbr, eles tem ideias muito boas mas ainda há contradições.

  3. Respeito sua opinião, mas vamos por partes.

    o conflito entre Direita x Esquerda ou conservador x revolucionário ou opressor x oprimido , existiu e continua existindo, o que Marx chamava de Luta de Classes.

    Concordo com você sobre PV e Psol. O pv é uma piada!!! Como alguém pode defender o meio ambiente se é a favor do capitalismo? esse capitalismo que trata tudo e todos como mercadoria, inclusive os recursos naturais.

    O Psol é o pt de 30 anos atrás. Não sabem se são socialistas, sociais- democratas, etc

    Acho as ideias do Partido Pirata interessantes, mas não da para jogar para baixo do tapete que vivemos em uma sociedade capitalista, consumista, individualista, etc. Em minha opinião é aí que continua o problema!!!

    Continua existindo uma pequena parcela da sociedade que é beneficiada pelo sistema vigente, enquanto que a grande maioria é prejudicada, explorada, isso é evidente!!!

    Ou se é contra essa sociedade que vivemos hoje ou se é a favor, não da pra fugir disso.

    A internet melhorou a comunicação entre as pessoas, fazendo com que todos que tem acesso a ela possa se expressar na rede, aumentando a capacidade de interlocução entre as pessoas.

    Mas e a economia ???

    Acho muito bom vocês lutarem pelo compartilhamento da cultura, a leitura e tudo mais, é uma causa justa, mais existem milhões de pessoas que nem tem o que comer!!!

    • Rodrigo, a ideia aqui é a de que talvez fique mais fácil distribuir os alimentos e acabar com a fome se a gente superar (e não esconder sob o tapete) a ideia de que o mundo se divide em direita e esquerda. Exatamente porque tem gente que, sim, defende o meio ambiente e ao mesmo tempo é capitalista. O binômio entra em curto, mas o mundo não. E a realidade está aí para ser estudada e pensada, e não para ser enjaulada em caixinhas de entendimento. Não é que não haja pessoas que pensam de um jeito ou de outro, mas é que elas não são assim sempre.

      Em outro ponto, posso dizer que a ideia é que mudar a sociedade talvez seja mais fácil se superarmos o binômio direita e esquerda e abrirmos os olhos para ou outros eixos que permitem explicar melhor a realidade em mais do que apenas uma dimensão.

  4. Oi Paulo,

    Muito legal seu post.

    Faltou dizer que o conhecimento hoje está no cerne da produção: é o conhecimento que produz mais conhecimento, que é o motor do capitalismo atual, e por isso é essencial que ele circule o mais amplamente possível.

    Daí a urgência da revisão da Lei de Direito Autoral, para que se adeque aos novos tempos e à dinâmica de compartilhamento da rede.

    Todo apoio à criação do PPBr!

    Um abraço,
    Bia

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