Hiperfície

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Unificação de numerosas intervenções do autor na Hiperfície

Inocência islandesa

texto originalmente publicado em Rascunho, em 28/09/2007

File:Innocence box cover.jpgLembro com gosto a primeira vez em que tive medo. Hoje o aprecio tanto quanto a coragem.

Mas mesmo desfeita a ilusão de ser intocável, a inocência permaneceu, em algum lugar diferente que a neurose só alcança se encontrar um campo fértil onde possa florescer.

Dominar a droga do medo é sentir-se onipotente.

Preservar-me para mais tarde ou dar tudo de mim generosamente? É o medo de perder que drena energia, tranca o peito e desliga o coração.

Abra-se e compartilhe!

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O fogo frio

Texto meu, escrito em papel no ano de 2007

Queria que houvesse ciência o bastante sobre sua dimensão destrutiva. Há apenas essa certeza de um futuro cinzento e da eterna lembrança da dor sentida. A dor em si passa. Um dia.

Não há, no entanto, argumento racional que, convencendo minha consciência, afasta essa obsessão que compele minha vontade a tais atos deploráveis e que fixa em minha face essa expressão tão pesada.

Pior é ver tudo acontecer à minha volta e me sentir preso no epicentro desse movimento catastrófico. Minha inércia volitiva é a fonte dessa Read the rest of this entry »

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Drop dead

originalmente publicado em Rascunho, em 26 de outubro de 2004

O espanto, ainda que fosse geral, em seus olhos se mostrava ainda mais visível. Ele nunca poderia se imaginar naquela situação.

O fato é – ninguém questionaria – aquilo havia ultrapassado, em muito, o máximo do sustentável. Aquele incômodo vinha martelando no ar numerosas ondas sonoras reiteradas, estupidamente irritantes. A coisa tinho ido tão longe que nem dava mais para enxergar a linha onde, lá atrás, tinha ficado o limite. Consenso velado, as pessoas apenas trocavam olhares, mas era indiscutível. Não dava mais!

Sob essas condições, como é que ele poderia, de alguma forma, prever que – ao ouvir seu urro a plenos pulmões de “Morre logo, porra!” – o cara sem noção, em vez de apenas parar de tossir na sala de aula daquela forma cavernosa, realmente iria obedecer?

Agora tava ali, o cadáver, “atendendo a pedidos”.

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O jeito foi ir dormir

originalmente publicado em Rascunho, em 08 de outubro de 2004

Não! Não!

Não, não, não, não, não. Ele repetia sozinho ao som da estática do monitor. Julgava inacreditável, mas era verdade.

A língua portuguesa se mostrava pobre. Na verdade, para aquele momento, todos os palavrões pronunciáveis em todas as línguas do mundo seriam insuficientes. A mão fria suportando a testa franzida e os olhos querendo se virar  para dentro como avestruzes. Teria ele pregado chiclete na cruz em outra encarnação?

Horas naquele texto. Horas durante as quais neurônios morreram aos montes enquanto ele lutava contra aquelas teclas. Ele havia encarado aquilo como uma guerra, na qual ele resistira e lutara até o fim: incluir, retirar, reduzir, sublinhar, negritar, sintetizar, expandir, pontuar, repensar, corrigir – inclusive os erros de estilo e as novas mudanças na gramática – tudo em nome do melhor labor mental.

E eis que, ao fim do esforço, após o parto da obra, quando ele se sentia no ápice de sua capacidade intelectual, um lapso de seu corpo cansado revelou como podem ser simples as idiotias que um ser humano se faz capaz de cometer. Sem alcançar a tecla “delete”, para apagar aquele único espaço que sobrara após o último ponto final, seu dedo tocara a tecla redonda, aquela com um desenho de um traço e um círculo, aquela maravilha tecnológica que servia  de  atalho no teclado para, de forma bem prática, desligar o computador dos descuidados. E, de forma bem trágica, ele perdeu tudo. Tudo, tudo, tudo.

E as frias letras brancas no fundo azul indicavam que o computador estava “pronto para ser desligado com segurança”.

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Em tempo…

originalmente publicado em Rascunho, em 24 de outubro de 2004

The Simpsons Series 13 Playmates Action Figure Dr. Stephen Hawkingscaled.70Stephen%20Hawking.jpgQuando terminei o texto, hesitei em publicar. Reli e achei que o pretenso humor talvez não compensasse o que ele tinha de insensível, quase maléfico, sem coração, desconsiderando e pisoteando valores morais da sociedade, estraçalhando com o respeito ao próximo. Admiti, por exemplo, que, se fosse católico, caberia como castigo a ordem de rezar uma quinhentas ave-marias pra não ir pro inferno.

Mas não demorou e fui alertado pela menina shoyo de que o que eu imaginara como uma extrema filhadaputagem capitalista já tinha sido posta  em prática e à venda havia algum tempo. Quanto inocência a minha, afinal, imaginar limites para a indústria de brinquedos infantis.

Sinceramente, nada mais me choca. Daqui a pouco a grow, a estrela, sei lá quem, vai querer lançar uma miniatura articulada de um “bebê anencéfalo“, acompanhado de um pequeno acórdão do STF e tudo o mais!

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Casca de noz e criptonita

originalmente publicado em Rascunho, em 19 de outubro de 2004

- Homens, pensemos nisso como uma homenagem sincera. Uma forma de construir a imagem de um verdadeiro herói. Não estaríamos fazendo outra coisa senão reconhecendo o valor de um sujeito e tranformndo-o em um notório exemplo a ser seguido. Se estaríamos sendo desumanos? Penso sinceramente que não. Usaríamos claramente suas limitações como prova viva de que a humanidade pode ir além e driblar a seleção natural. Com uma adequada estratégia de marketing, mais que ser conhecida, sua história de vida passaria a servir de farol para as pessoas do mundo inteiro. Sem falar na decorrente habitualização cultural ao diferente, àquele que não é igual, ao outro, e isso tudo de uma forma bem sutil. Ademais, qual é a conseqüência de nosso trabalho se não a construção subliminar de referências de comportamento no inconsciente  das crianças.

- Olha, com todo o respeito, você apresenta bem seus argumentos, defende bem suas tese e foi um belo discurso. Mas não adianta insistir: esta empresa não vai gastar tempo nem dinheiro na produção de uma “Barbie – Stephen Hawking que mexe o dedinho”!

- Mas nem no “Ken – Christopher Reeve“?!

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Imagine your pain as a white ball

originalmente publicado em Rascunho, em 04 de fevereiro de 2006

Estacionamento, ligeiro incômodo, COF. O susto lhe dispara o raciocínio rápido.

Ele, minutos antes, dirigindo. A cápsula, esquecida dentro do carro, intacta. Relógio, 18:37, atraso de duas horas e trinta e sete minutos. Lembranças do então recente ensino médio. Biologia: bactérias não devidamente aniquiladas, sobreviventes mais fortes. Era obrigatório engolir o remédio ali mesmo, a seco. Boca aberta, faz mira, “gulp”, foi. Gol, tá lá dentro.

Fim do flashback. As duas bolas de fumaça branca expelidas narinas afora naquele pequeno tossir agora faziam sentido. E o gosto horrível… era o antibiótico. Merda.

Dinheiro no bolso, pressa. Cantina da faculdade. Água cara, chocolate caro, idéia idiota.

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Como um pão no forno

originalmente publicado em Rascunho, em 17 de janeiro de 2006

Sentia que seus dedos queriam brincar. As mãos sentiam falta da lapiseira e da borracha, mas a cabeça estava muito ocupada com as sensações para dar atenção aos sentimentos. Os seus sentidos o inundavam com informações sensacionais. Era como se o corpo todo fossem “pés quentes” (para citar Juan Preciado, certa vez citado pela Menina Shoyo).

O texto que lhe ocorria, talvez uma letra de música, já tinha título,  “bucólica”, e teria uma temática calma e campestre,  mas cheia de cores. Falaria de doces expectativas e leves esperanças passando pela cabeça, num movimento muito semelhante a brancas nuvens contempladas num céu azul, dessas que  são  facilmente identificadas com outras coisas por olhos lúdicos e inocentes quando deitados confortavelmente na grama. Citaria obscuramente algum trecho de algum autor famoso, na intenção vã de que alguém reconhecesse e o elogiasse.

http://www.satugalleria.net/kuvat/business/nukkumat.jpgMas não vai ser dessa vez. Mais uma vez. É que se às vezes, entre o clique da luz e o começo do sonho, ele até chegava a sentir alguma coisa – de uma forma absolutamente harmônica e criativa, iam se acumulando e mesclando memórias, que encadeavam alguma saudade, certa auto-piedade, considerações incertas sobre auto-estima, num crescendo promissor… – de repente Morfeu resolvia passar cavalgando carneirinhos e a ele só restava perceber que  sua própria consciência  já não era exatamente o seu território naquele instante. Um evento criativo bastante irônico.

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Clouds roll by…

http://s3.images.com/huge.19.95681.JPGUma pessoa nasceu, cresceu e morreu. Isso acontece o tempo inteiro, em todos os lugares. Nesse exato momento, cada uma dessas coisas acontece em algum lugar com alguém. Nesse mesmo lugar, cada um desses eventos vai ocorrer, um dia. Com incontáveis pessoas, tudo isso vai acontecer, algum dia, em algum lugar, de algum modo. O importante é o modo.

Se todos os rios têm como destino desaguar no mar, nenhum mar é igual. E mesmo os rios que correm para o mesmo mar, cada um deles tem uma foz própria, e assim, para cada um deles, o mar é de um modo distinto. Da mesma forma, em seu ciclo de evaporar, circular, condensar e fluir, cada gota d’água tem um histórico todo próprio, uma trajetória completamente específica e irrepetível. Read the rest of this entry »

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Friaca

originalmente publicado em Rascunho, em 19 de agosto de 2004

showerMas isso não é água, são cubos de gelo!” ouviu-se dele, ao mesmo tempo em que batia os dentes, cansado, ao fim de mais um de tantos dias daquela caminhada, a qual começara sem destino e finalmente o levara a alguma cidade minimamente povoada, apenas o bastante para oferecer-lhe aquela maldita pocilga chamada “Hotel Local”,  cuja falta das letras “H”, “e” e “c” no painel frontal indicava qual seria a qualidade dos cuidado que a ele poderiam ser proporcionados no estabelecimento, do qual agora – quando os termômetros sujos anotavam a mais baixa temperatura que já lhe arrepiara a pele – percebia a falha nos sistemas de aquecimento e hidráulico, prestando-lhe em conjunto a imensa frustação (digna de incontáveis palavrões) à sua pretensão de tomar o banho relaxante de que tanto precisava.

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