originalmente publicado em Rascunho, em 08 de outubro de 2004
Não! Não!
Não, não, não, não, não. Ele repetia sozinho ao som da estática do monitor. Julgava inacreditável, mas era verdade.
A língua portuguesa se mostrava pobre. Na verdade, para aquele momento, todos os palavrões pronunciáveis em todas as línguas do mundo seriam insuficientes. A mão fria suportando a testa franzida e os olhos querendo se virar para dentro como avestruzes. Teria ele pregado chiclete na cruz em outra encarnação?
Horas naquele texto. Horas durante as quais neurônios morreram aos montes enquanto ele lutava contra aquelas teclas. Ele havia encarado aquilo como uma guerra, na qual ele resistira e lutara até o fim: incluir, retirar, reduzir, sublinhar, negritar, sintetizar, expandir, pontuar, repensar, corrigir – inclusive os erros de estilo e as novas mudanças na gramática – tudo em nome do melhor labor mental.
E eis que, ao fim do esforço, após o parto da obra, quando ele se sentia no ápice de sua capacidade intelectual, um lapso de seu corpo cansado revelou como podem ser simples as idiotias que um ser humano se faz capaz de cometer.
Sem alcançar a tecla “delete”, para apagar aquele único espaço que sobrara após o último ponto final, seu dedo tocara a tecla redonda, aquela com um desenho de um traço e um círculo, aquela maravilha tecnológica que servia de atalho no teclado para, de forma bem prática, desligar o computador dos descuidados. E, de forma bem trágica, ele perdeu tudo. Tudo, tudo, tudo.
E as frias letras brancas no fundo azul indicavam que o computador estava “pronto para ser desligado com segurança”.
Arquivado como:Rascunho, microconto, momento diário , botão desligar, power off key, teclado
Hipercrítica