21, Outubro, 2009 • 14:28
originalmente publicado em Rascunho, em 13/03/2005
Após ler a notícia na íntegra, entrou em transe. O resto do jornal caiu largado na calçada enquanto ele seguiu até o carro. Olhar fixo na manchete, a cabeça ia longe. Só pensava em todos aqueles discos, shows, autógrafos, fotos, entrevistas gravadas no vídeo cassete para ela ver mais tarde, sem falar na novíssima coleção de DVD’s que ele mesmo comprou de presente.
Ora, antes era algo intangível, longínquo. Achava engraçadinho e até contava com galhardia para os amigos. Mas agora estava ali, na cara dele. Havia um caso concreto, público e notório, estampado em capas de revistas.
Nenhum livro de auto-ajuda seria capaz de livrá-lo daquele incômodo. Aquilo o atacava no âmago de seu ser, quebrava as canelas de sua ética, que julgava inabalável, infalível. Não foi trabalhar.
Ao cair da noite, quando ela chegou em casa, assustou-se ao vê-lo no sofá. Mal sabia que atravessara o dia naquela única posição lacônica. Sentado, o corpo curvado sustentando a cabeça baixa e as mãos soltas segurando entre as pernas poucas páginas entreabertas de jornal.
Com o rosto de quem carrega o mundo nas costas, seu olhar faiscou e ele se expôs. Entre lágrimas escorridas, a voz saiu-lhe da boca rompendo o silêncio:
- Você também me trairia com o Chico Buarque?
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24, Setembro, 2009 • 23:27
Texto meu, escrito em papel no ano de 2007
Queria que houvesse ciência o bastante sobre sua dimensão destrutiva. Há apenas essa certeza de um futuro cinzento e da eterna lembrança da dor sentida. A dor em si passa. Um dia.
Não há, no entanto, argumento racional que, convencendo minha consciência, afasta essa obsessão que compele minha vontade a tais atos deploráveis e que fixa em minha face essa expressão tão pesada.
Pior é ver tudo acontecer à minha volta e me sentir preso no epicentro desse movimento catastrófico. Minha inércia volitiva é a fonte dessa Read the rest of this entry »
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4, Novembro, 2008 • 06:43
1, Dezembro, 2007 • 05:15
poema originalmente publicado em Rascunho, em 11 de maio de 2005
Deixada, odiou-lhe tanto, sentiu-se tão traída, tão ultrajada, tão subvalorizada em seu amor que passou a menosprezar em abstrato a própria idéia do sentimento, a possibilidade de uma relação de verdadeira entrega.
Entregou-se deliberada e despudoradamente a homens que a satisfizeram mais do que ele jamais conseguira. Sentiu o prazer, e o sentia potencializado, tendo na mente que, cama a cama, desfazia-se progressivamente no seu coração a lembrança daquele passado injusto de entrega sem o devido retorno.
Até o dia em que o reencontrou, olhou-lhe os olhos e percebeu que ele nunca deixara de amá-la. E, lembrando da forma como a vingança lha envenenara a vida, chorou de remorso, por ter destruído em si mesma o sentimento mais lindo que já sentira. Sentenciou, enfim, que ela, e ninguém mais, era a culpada pelo fim do amor entre eles.
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Hipercrítica