Putz

originalmente publicado em Rascunho, em 07/05/2004

Já estava chato. A intensidade e a freqüência com que os amigos insistiam em sacaneá-lo o irritavam. Mais pela falta de um real fundamento. Ora, na verdade, ele apenas a achava bonita. Tá certo, achava muito bonita. Pra dizer a verdade, achava-a a coisa mais bonita que já tinha visto se mexer. Fazia-o pensar na beleza estática das fotos de paisagem que odiava receber em apresentações de Power Point.

O caso é que ele mesmo mal tinha esperanças. E, não sendo caso de paixão, muito menos de amor (pô, fala sério), deixava rolar. Apenas tentava fazer transparecer, assim, casualmente o seu interesse, mas sem construir muitas expectativas.

Ela sorria às vezes. Normalmente não entendia, pelo menos assim parecia. Aliás, ele bem que gostava de supor que talvez ela estivesse fingindo não entender, e que no fundo fosse completamente apaixonada por ele, mas tivesse tanto receio de se expressar que procurava despistar. Ilusão passageira, ele pensava. E seguia minando internamente as chances de rolar qualquer coisa, sem perceber as chances que não aproveitava.

Foi nesse cenário de suspensão inerte, morosa e infrutífera de indecisão covarde (da parte dele, fique claro), que ela o chamou de lado e disse que tinha algo importante pra dizer. Naqueles poucos passos rumo ao corredor ele sentiu todo o clima de pré-tempestade se formar no peito, uma tensão, a beirada de um precipício escuro, mas ao mesmo tempo bastante promissor.

Daí ela falou lá que tinha uma amiga, solteira e que talvez quisesse conhecê-lo. Disse que achava que essa amiga fazia o tipo dele e vice-versa etc. Putz. Ele se sentiu um idiota. Pensou nela como alguém muito esperta de traçar aquela estratégia indireta. Antes que fosse obrigada a dar o fora expressamente, arrumou uma desculpa convincente para enterrar todas as possibilidades entre os dois. Ela provavelmente desde sempre havia lido nos olhos dele que nunca ouviria uma revelação de sentimento e resolveu dar cabo daquela bobagem. Ele sentiu o golpe, mas absorveu e ergueu a cabeça. Dias depois, o fato é que com a tal amiga rolou mesmo. E foi intenso, forte.

Hoje ele pensa que, no final das contas, até saiu ganhando. Conseguiu se pegar com alguém pra lá de apresentável, bem bonita, pra ser sincero, e a dissolução não teve ninguém levando fora, mas um mútuo apagar do interesse que acabou numa amizade superficial, dessas que se sustentam com eventuais conversas virtuais ou encontros não planejados em locais de grande circulação.

E considerando que ele fez bem o seu papel com essa amiga, tem certeza que a incontível fofoca inter-feminina também fez a sua parte. Aposta que hoje ela, sua musa original, vivendo a aparência de um namoro de ano e meio feliz, é que se arrepende de não ter dado a devida bola pra ele.

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