Ironia

originalmente publicado em Rascunho, em 11/05/2004

Deixada, odiou-lhe tanto, sentiu-se tão traída, tão ultrajada, tão subvalorizada em seu amor, que passou a menosprezar em abstrato a própria idéia do sentimento, a possibilidade mesma de uma relação de verdadeira entrega. E entregou-se, deliberada e despudoradamente, a homens que a satisfizeram mais do que ele jamais conseguira.

Sentiu o prazer, e o sentia potencializado, tendo na mente que, cama-a-cama, desfazia-se progressivamente no seu coração a lembrança daquele passado injusto de entrega sem o devido retorno.

Até o dia em que o reencontrou, olhou-lhe os olhos e percebeu que ele nunca deixara de amá-la. E, lembrando-se do tanto que a vingança lha envenenara a vida, chorou de remorso, por ter destruído em si mesma o sentimento mais lindo que já havia sentido. Sentenciou, enfim, que ela mesma, e ninguém mais, era a culpada pelo fim do amor entre eles.

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