Lei do eterno retorno

microconto livremente inspirado na crônica de Mateus Baeta Neves.

Quando papai percebeu que a sujeira dos meiões grudou no banco de trás do carro novinho, levei tanta bronca, ouvi tanto desaforo,  foi tanto berro, que jurei nunca mais entrar no carro dele de novo. Esse foi o meio termo que encontrei entre nunca mais falar com papai e nunca mais ir jogar futebol. Olhando fixamente para aquele tecido fedido (antes branco, agora um caleidoscópio de marrom e verde) decidi que todo sábado de tarde, depois do jogo dos adultos (que é quando o sol fica bonito), continuaria me encontrando com meus amiguinhos no campão do clube; mas eu voltaria para casa de ônibus, de bicicleta ou a pé. Nunca, nunca de carro.

Minha resolução não durou muito mais que dois meses. Depois das férias do fim de ano, mamãe me convenceu a deixar que ela me buscasse no clube. Ela dizia que a cidade estava ficando perigosa para uma criança andar por aí daquele jeito; eu só estava mesmo com saudade do conforto de um carro, especialmente um que não fosse o do papai. Ainda assim, aquelas poucas oportunidades em que voltei  só para casa, talvez pela introspecção, ficaram marcadas em minha memória.

No dia em que completei dezoito anos faltavam apenas três dias para o início das aulas práticas na auto-escola. Com a merreca que recebia dando aulas particulares para vestibulandos, fiz questão de pagar todo o meu processo de habilitação. E, sem ajuda e em segredo, tracei um plano no calendário que se realizou perfeitamente. No primeiro sábado depois que recebi a minha carteira provisória pelo correio, fui e voltei para o clube no carro da mamãe. Atrás daquele volante, eu era senhor do meu futebol, do meu meião sujo, da minha vida, da minha liberdade de ir e vir.

Hoje, muitos e muitos sábados depois, algumas coisas mudaram: tenho um emprego de verdade, tenho meu carro e agora jogo no horário dos adultos; outras coisas, continuam as mesmas: meus amigos, meu meião sujo e ainda moro com meus pais. É por essas coisas todas, juntas, que me lembrei dessa história toda.

Enquanto me afastava do barulhento debate das jogadas de meia-hora atrás (que continua tenso exatamente como nos tempos de infância) era visível a indisciplina dos meus passos. A culpa é da cervejinha pós-pelada, essa paixão adquirida nos tempos de adulto, mas que me fez voltar a me sentir criança, completamente preocupado com o estado higiênico dos meus meiões: mamãe já não dirige mais, a lei seca está em vigor e pela terceira vez no mês papai se ofereceu pra vir me buscar.

4 pensamentos sobre “Lei do eterno retorno

  1. Pingback: O Direito “perdido” na Veja « Hiperfície

  2. Parabens pelo seu blog

    Não conhecia.

    Temos ideias diferentes sobre algumas coisas mas estamos no mesma luta anti-timotismo.

    abraços
    Marcelo Hermes

  3. O mesmo aconteceu com as minhas braçadas recentes, me senti equiparada com o nível que encontrei naquele lugar.
    E não preciso enfatizar a doçura do seu texto, né? Coisa fina.

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