“Você não se acha mais inteligente?”

Marta Suplicy e Lula, em 2008Reproduzo um trecho de uma reportagem da Folha Online sobre uma palestra da Marta Suplicy, ontem, quinta-feira, na FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas), na cidade de São Paulo, onde ela é candidata à Prefeitura.

Antes de deixar o prédio, a ex-prefeita foi parada por Caroline Cordeiro, 24, estudante do quinto ano de direito. Ela perguntou para Marta se ela não se achava mais preparada do que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para ocupar a Presidência da República pelo fato do presidente não ter ensino superior. A candidata disse que Lula era mais preparado do que ela porque aprendeu de outras formas, como atuando à frente do Sindicato dos Metalúrgicos.

Mesmo assim, a estudantes insistiu: “Você não se acha mais inteligente?”, então a candidata respondeu: “Eu acho que você não entendeu o que estou falando. É uma pena.”

Veja a postura de uma estudante que, mesmo apoiando a candidata, adota uma postura elitista com relação ao ensino formal. Veja bem, uma estudante de direito,  do quinto ano, “pronta para o mercado”. Que vai atuar na promoção de direitos da pessoas.

Sublinho também, com certa decepção, a falta de paciência da candidata em tentar argumentar com a estudante. Ao final, não houve diálogo, não houve troca. Cada uma terminou a conversa pensando exatamente da mesma forma que pensava antes.

É uma tensão da democracia que não é nova nem é exclusiva do povo brasileiro. Mas me incomoda profundamente. Fico muito incomodado em perceber que muita gente, inclusive muita “gente boa”, pensa em analfabetismo como ingenuidade, ou mesmo burrice, falta de capacidade ou preparo para exercer um cargo público, e presupõem sempre, que alguém com ensino superior, independente da área de formação, seria melhor.

Não discordo de que o estudo formal seja um direito social, porque um benefício, algo desejável e exigível. Não discordo de que uma educação de qualidade seja uma obrigação do Estado para com os  seus cidadãos. Mas jogar com esse argumento para furtar a cidadania plena daqueles que, por qualquer motivo que seja, não tem educação formal, eu acho uma tremenda sacanagem (no mau sentido). Sacanagem porque essa postura é parte da compaixão para com uma pessoa exatamente para relegá-la a um patamar inferior. É uma pena (dó) que impõe uma pena (punição).  É uma lógica perversa, cruel, porque oculta, difícil de perceber e, portanto, de atacar.

Vamos à desconstrução desse raciocínio, por meio de um breve  exercício de memória: quantas pessoas com ensino superior já foram eleitas e fizeram inúmeras besteiras? Quantos corruptos se formaram nas mais conceituadas instituições, do Brasil e do mundo?

Nem a honestidade nem o compromisso com a coisa pública, com uma busca por um bem comum (qualquer que ele seja): nenhum dos dois guarda relação de proporção com a quantidade de anos de estudo. As minorias, os oprimidos, os excluídos, entre todos esses grupos há inteligência e civilidade.

Não “vale” dizer que seria ainda pior se os “despreparados” estivessem no poder. Não é menos perverso pensar que “a chance é maior” de haver inteligência entre os ricos e bem afortunados. Essa estatística vem de onde? Quem fez essa pesquisa? Cadê os números? Alguém contou realmente o número de honestos entre as classes sociais, os gêneros, os níveis de instrução? Não. É apenas o preconceito se manifestando mais uma vez, travestido, como sempre, de “lógica”, de “óbviedade”, de “evidência”.

Não digo que o Brasil ou qualquer lugar do mundo estaria necessariamente melhor, do ponto de vista da administração, da realização de políticas públicas. Não estou pedindo para votarmos apenas nas minorias, porque elas vão nos “salvar da danação”. O meu ponto não é esse.

Estou dizendo que o Brasil, o mundo, estaria melhor se respeitássemos as pessoas que são diferentes. Não é “respeitar apesar da diferença”. É respeitar a diferença. Essa é uma diferença que, por si só, já seria uma grande diferença.

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