Sujeito e objeto

Segue um trecho de um livro que eu comprei há duas semanas, mas do qual já tinha notícia havia alguns anos. Eu sabia que ele se tornaria alvo de minha obsessão, então posterguei ao máximo. Fui vencido. Um pequeno aviso: o original não tem parágrafos.  Nem hiperligações. Quer dizer, tem outro tipo de hiperligações, anteriores à Internet. Mas disso eu falo depois.

A única coisa certa era o peso na boca do estômago, a suspeita de que algo não ia bem. Não se tratava sequer de um problema, mas sim de ter-se negado sempre, desde cedo, às mentiras coletivas ou á solidão rancorosa daqueles que começam a estudar os isótopos radioativos ou a presidência de Bartolomeu Mitre.

Se escolhera algo desde jovem, esse algo fora não se defender por meio da rápida e ansiosa acumulação de ‘cultura’, truque muito característico da classe média argentina para tirar o corpo da realidade nacional e de qualquer outra para julgar-se a salvo do vazio que a rodeava. Talvez, graças a essa espécie de figa sistemática, como a definia seu camarada Traveler, Horacio Oliveira conseguisse evitar o ingresso nessa ordem farisaica (em que militavam muitos amigos seus, em geral de boa-fé, já que a coisa era possível, havendo mesmo exemplos), a qual acabava sempre por evitar o fundo dos problemas mediante uma especialização de qualquer ordem, cujo exercício conferia ironicamente os mais altos títulos de argentinidade.

Além do mais, Oliveira considerava muito fútil e fácil misturar problemas históricos, como ser argentino ou esquimó, com problemas como o da ação ou o da renúncia. Já vivera o suficiente para suspeitar daquilo que, embora esteja debaixo do nariz de todos, poucas vezes se percebe: o peso do sujeito na noção do objeto.

A Maga era das poucas pessoas que jamais esqueciam que o rosto de um sujeito qualquer influía sempre na idéia que esse sujeito pudesse ter do comunismo ou da civilização creto-micênica e que a forma de suas mãos estva presente naquilo que o dono pudesse sentir diante de um Ghirlandaio ou de um Dostoievski.

Era por isso que Oliveira tendia a reconhecer que seu grupo sangüíneo, o fato de ter passado a infância rodeado de tios majestosos, alguns amores contrariados na adolescência e uma facilidade para a astenia poderiam ser fatores de primeira ordem na sua cosmovisão. Era classe-média, era portenho, era colégio-nacional, e essas coisas não têm cura.

(in: Julio Cortázar, “O jogo da Amarelinha”. 12ª Edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. Cap. 03, pp. 27-28).

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