Existe racismo?

Marcelo Hermes perguntou em seu blog Ciência Brasil:

Gostaria de saber como ficam as cotas raciais em Pindorama nos próximos anos. Há universidades em que se discute ampliar as cotas (raciais e não-raciais) para 50% das vagas.

O motivo da questão é o lançamento do livro Humanidade Sem Raças? (Publifolha, 69 págs. R$ 12,90), do geneticista Sérgio D.J. Pena, da UFMG.

A resposta, que não é singular minha, mas de muitos que defendem as cotas, se baseia numa obviedade: a sociedade não é só ciência. Nenhum passo teórico do mundo da ciência tem impacto imediato nos outros âmbitos sociais. Vide teoria da evolução, que ainda hoje é contestada religiosa, moral e politicamente. Quantos e quantos conceitos são mal utilizados ou utilizados sem precisão no dia-a-dia.

Bom, no caso, a desconstrução do conceito de raça pela ciência não é propriamente uma novidade. Mas ele persiste como significado social. Ele é uma variável presente nas relações entre as pessoas que não pode ser negada. Deve ser combatida, mas não “negada”.

Fechar os olhos para a realidade cruel do racismo e tentar enchergar o mundo pelos resultados laboratoriais é um tipo de cegueira, da que fala Saramago.

Racismo é apenas o nome desse preconceito em função a cor da pele. E mudar seu nome, pela falta do conceito científico de raça, não vai fazer com que o preconceito deixe de existir, qualquer que seja o termo usado. A mudança social, para eliminar o racismo, precisa de mais empenho, não pode ficar nesse nível superficial da linguagem, tem que entrar no simbólico, no significado, no sentido social do termo.

Assim como esse estudo do Sérgio Pena, as cotas raciais são uma tentativa de desconstruir o racismo que, contra a ciência e contra a própria dignidade das pessoas, insiste em existir. O passo político de promover a igualdade material não é mais do que uma forma de fazer valer os esforços, de todas as ordens, que seguem advogando pela injustiça de nos separarmos pela fenotípica cor da pele.

Resposta dada, queria ver o Marcelo Hermes, ou qualquer seguidor do Reinaldo Azevedo, se manifestar sobre essa nota do site do Conselho Federal da OAB:

O presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, Cezar Britto, em nota divulgada hoje (27), congratulou-se com o futuro reitor da Universidade de Brasília (UnB), advogado José Geraldo de Sousa Júnior, que qualificou de “personagem emblemática na luta pelo fortalecimento do ensino jurídico no País”. Britto destaca ainda, sobre o novo reitor, que “suas idéias influenciaram gerações e estimularam a paixão pelo Direito e a resistência democrática, ao tempo da ditadura”.

Obs.: Por um descuido meu, na pressa para alterar a disposição dos artigos no blog, todo este artigo foi perdido e ficou indisponível por alguns dias. A recuperação se deve ao Google e sua armazenagem das pesquisas. Salve o admirável grande irmão novo!

10 pensamentos sobre “Existe racismo?

  1. ABRE ASPAS
    Uma mulher e um negro disputam a presidência dos Estados Unidos. Enfim as mulheres, ancestrais coadjuvantes do macho nas empreitadas que garantiram a hegemonia da espécie humana no planeta, levantam-se a ponto de reivindicar o primeiro plano no mais avançado e bem-sucedido dos países. Parece Hillary Clinton, não parece? A mulher fica no meio do caminho (continua parecendo Hillary), e vence o negro (parece Barack Obama, não parece?). Enfim um negro, representante da mais oprimida das gentes, sobrevivente de uma crônica de humilhação e escravização, alça-se a ponto de destronar o branco no mais poderoso de seus postos. Parece o panorama de hoje nos Estados Unidos, mas não é. É o enredo de O Presidente Negro, romance utópico-futurista de Monteiro Lobato escrito no distante ano de 1926, e ambientado no distante ano de 2228. (…)

    Para ler o artigo, que está na revista Piauí deste mês, ver: http://www.revistapiaui.com.br/edicao_25/artigo_775/Visionario_espiroqueta.aspx

  2. Uma forma de pensar é o “cada um com seu quadrado“; outra e ver que estamos todos no mesmo “quadrado” e que temos de fazer alguma coisa, pelas mulheres, por quem é homossexual, por quem é pobre, pelos indígenas, pelas crianças e, também, pelos negros. Para cada um urge uma solução, que não deve ser encarada como oposta à outra, mas complementar.

    Não tem necessidade de contrastar as cotas raciais com as cotas “econômicas”, elas devem se complementar.

    Ideal por ideal, haveria educação de qualidade para todo mundo. Não estamos num mundo ideal. E aí, vamos fazer o que com a discrepância entre negros e brancos? Nada? Esperar que ela se resolva sozinha?

    Marcelo Hermes, você também pode opinar! =)

  3. Sim, existe racismo, assim como existe homofobia e outros sentimentos cruéis que o ser humano costuma ter contra ele mesmo. Não posso tecer minha opinião fechada sobre o assunto das cotas porque não possuo conhecimentos mais profundos a respeito. Mas, se ela acontece do jeito que me foi apresentada, sou contra. Uma coisa é reservar determinado número de vagas a quem não teve condições financeiras de obter um estudo de melhor qualidade, visto que o nosso país carece de um ensino público equiparado ao pago, outra coisa é reservar vagas a uma das raças existentes no Brasil, que é tão diverso.

  4. Sim, infelizmente existe racismo.
    Concordo com as cotas desde que seja uma medida provisória. Não pode ser permanente, para não criar um certo comodismo em cima disso. Essa tentativa o Sérgio Pena é extremamente pertinente, visto que corrobora para um melhor entendimento de que na verdade, não existe raça. A ciência nos mostra que todos viemos da África, descendentes de um ancestral comum. Porém apesar de tanta informação mostrando nossas origens, infelizmente o racismo ainda existe em nosso meio. Nesse panorama as cotas raciais são necessárias nas universidades públicas brasileiras.

  5. Paulo,
    Lógico que há racismo no Brasil. E não é POUCO. Fazendo um paralelo com a Medicina, podemos dizer que este é o diagnóstico.

    Mas qual o tratamento ? Eu não usaria cotas como medicamento.

    ps: Não sou “seguidor” do Reinaldo Azevedo. Sou fã. É uma coisa bem diferente :o)

  6. Muito interessante falar sobre “mudar o nome do preconceito em função da cor de pele”.
    De fato, a re-estruturação “nominal” dos problemas não vai fazer nenhum deles ir embora.

    Bateu em um ponto legal.

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