Interdisciplinaridade

Reproduzo abaixo (com negritos meus) o genial “Nota sobre interdisciplinaridade“, que o brasileiro Bernard Sorj publicou como anexo de seu livro Democracia Inesperada, de 2004. Conheci esse  texto no dia 05 de novembro de 2008, durante uma aula da pós-graduação em Direito, Estado e Constituição que faço na UnB. Já aviso que muito em breve volto a esse tema, vivido em baixa intensidade no ambiente acadêmico usual.

Este livro tem expressa consciência da necessidade e dos limites da interdisciplinaridade e, que é, de certa forma, a utopia das ciências sociais. É consensual que para entender a complexidade da vida social seja necessário mobilizar os diferentes recursos das várias disciplinas, pois cada uma delas só é capaz de refletir sobre uma dimensão, parcial, da sociedade. Contudo, quando a utópica obra interdisciplinar se concretiza, os resultados ficam quase sempre aquém das expectativas; uma espécie de bricolagem, em que as disciplinas são mobilizadas ad hoc para preencherem as lacunas de outras. No melhor dos casos, uma obra-prima, embora irreproduzível, pois é produto único da capacidade de síntese e da erudição do autor. Assim, se os estudos disciplinares são, em grande medida, redundantes – pois longos argumentos só servem para confirmar as premissas iniciais –, os trabalhos interdisciplinares são geralmente entrópicos, pois são irreproduzíveis – já que não possuem consistência teórica –, sem possibilidade efetiva de comparação e de acumulação intelectual.

A dificuldade da interdisciplinaridade é dupla, pois a especialização é expressão tanto da realidade das sociedades modernas, nas quais os subsistemas sociais são altamente diferenciados, quanto da diversidade de disciplinas que estudam os vários subsistemas, e que desenvolvem teorias, conceitos, problemáticas e – de certa forma, o aspecto mais importante – sistemas auto-referidos de discursos que fazem com que a passagem de um marco disciplinar a outro seja questionável.

O problema central da interdisciplinaridade não é que cada disciplina das ciências sociais possui uma vocação imperial – e, [*117] portanto, uma natural tendência invasiva, que desrespeita ou, no mais das vezes, é insensível à especificidade das diferentes lógicas teóricas e práticas de cada disciplina –, mas o fato de que, em uma sociedade democrática, a autonomia dos subsistemas sociais é a condição do pluralismo intelectual, da liberdade individual e coletiva e o fundamento de um sistema de justiça não submetido à tirania do poder econômico, político, cognitivo ou religioso. Nesse sentido, todo sistema explicativo que procura reduzir o Direito (ou qualquer outro subsistema social, como por exemplo a pesquisa científica) a causas exógenas, como interesses econômicos ou quaisquer outros fatores externos, participa, conscientemente ou não, de um esforço de deslegitimação das instituições democráticas.

Na América Latina contemporânea, o sentimento de urgência produzido pela desigualdade e os enormes problemas sociais continuam a levar muitos setores desejosos de mudanças a uma vontade transformadora, que desconsidera os procedimentos legais e as exigências próprias da lógica jurídica. Dessa forma, esses grupos dirigem-se, por um caminho próprio, ao encontro da tendência, que caracterizou a história do continente, de desrespeito à autonomia das esferas da justiça pela imposição do poder econômico e/ou político – tendência que ignora que a autonomia dos sujeitos na sociedade moderna só pode ser construída pelo reconhecimento e respeito das regras próprias de cada subsistema social.

Se decidimos enfrentar o esforço de uma análise interdisciplinar partindo do reconhecimento de tais dificuldades é porque acreditamos que a dinâmica social hoje impõe o diálogo entre disciplinas. Esse diálogo deve refletir e agir sobre uma realidade na qual as fronteiras entre o sistema jurídico e os outros subsistemas sociais tendem, senão a implodir, pelo menos a dar sinais de inúmeras rachaduras e tensões.

12 pensamentos sobre “Interdisciplinaridade

  1. Spivak é legal, mas é foda. o texto emblemático dela é o “can the subaltern speak?” – e eu juro que nao entendi nada, sozinha, tive que pedir ajuda aos universitários.

  2. Muito apropriada a análise do autor. De fato, o risco de a interdisciplinaridade levar à “corrupção” do código de funcionamento do sistema jurídico é grande. Análises que incorporam a economia e a sociologia às vezes acabam por fazer isso. Mas acredito que é, sim, possível e necessário compreender o direito de forma interdisciplinar sem perder de vista que a análise deve ser em última análise voltada à realização do direito, e não à sua ruptura (se for para defender a ruptura, que seja consciente, e não como efeito involuntário da interdisciplinaridade).

    Acredito que a construção da pesquisa efetivamente interdisciplinar é um processo em curso. Esse processo, para ganhar força, precisa que a interdisciplinaridade seja inserida com mais intensidade e seriedade nos currículos e principalmente nas abordagens pedagógicas das nossas disciplinas. Gostei dos exemplos do MHL.

  3. Poxa, Quel, gostei da Gayatri Spivak! Os nomes dos livros e a tradução de Derridá. Muito interessante. Valeu pela referência. Vou procurar ler coisas.

    Não sei se o Sorj a conhece, até porque aidna não li o livro dele todo. Quem sabe ela não consta enumerada na Bibliografia…

  4. ele deve estar dialogando com o “death of a dicipline”, da gayatri spivak, c conhece? ela que fala que os limites entre as ciencias meio que terminaram. mas ela nao fala de interdisciplinaridade, taí a parte da interpretacao…

  5. Pingback: A necessidade da interdisciplinariedade « Hiperfície

  6. Pelo menos juridicamente (Código Civil, artigos 1.196 e 1.228, caput), a posse que você menciona como necessária, cara Déia, formaliza-se também pelo uso, uma vez que esse é uma das faculdades inerentes à propriedade. Portanto, no caso de qualquer obra escrita, a mera leitura configura a sua posse pelo leitor.

    Ter o livro em mão, presencialmente, tem um outro sabor, especialmente quanto a presentes para amigos, já que pode ser embrulhado, desembrulhado e, depois, guardado como lembrança ou exibido como adorno. Mas nesse caso, do artigo do Sorj, acho que o conteúdo, pelo menos no momento, prevalece. Mas a terra gira e aniversários chegam, não é mesmo.

  7. Não vejo problemas em comprar a obra. O problema é, como em boa parte das relações entre seres humanos, veja só como a analogia é ampla, a necessidade da posse. Eu compro, eu empresto, o livro roda, o conhecimento flui. Assim se acumulam comentários e perspectivas de forma mais comunitária… tanto quanto em comunidades virtuais.

  8. Marcelo, seu comentário antecipa um ponto cego do texto que irei explorar: a interdisciplinariedade não é uma exigência apenas das ciências humanas, mas a utopia de qualquer ciência. E falta dela (ponto cego na sua observação) existe não apenas para os alunos, mas para professores e para a própria Universidade.

  9. Interdisciplinaridade (ô palavra grande) é algo que falta e MUITO para os alunos da Medicina e Nutrição da UnB (onde dou aula).

    Eu dou aula de bioquimica. Mas tô sempre na necessidade de um entendido em histologia, radiologia, anatomia patológica, biologista molecular, fisiologista cardíaco, etc, para complementar minhas aulas e debates.

    Um exemplo: o que esta´por tras da epidemia de obesidade no Brasil ? Dai temos as questões biomédicas e psicológicas, e até de sociologia alimentar. Em 13 anos de UnB, consegui uma média de 1 colega para me ajudar em 1 aula a cada 2-3 anos…

    Se o seu amigo JG puder ajudar neste ponto, a UnB agradece (não falo de mim, apenas dei um exemplo).

  10. Só para registro, como parte de minha nova empreitada contra o aspecto patrimonial dos direitos autorais, farei o máximo para continuar não “tendo” o livro, mas apenas acessando-o, de forma gratuita, como foi o caso desse anexo. Ele tem bons trechos disponíveis no link indicado no post.

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