Em Brasília, dezenove horas

Em uma semana perdida no chuvoso final de novembro, a capital brasileira é palco de dois momentos antagônicos, num conflito entre democracia e plutocracia.

De um lado, a noite de hoje foi marcada pela passagem do crago de reitor do temporário Roberto  Armando Ramos de Aguiar para o eleito José Geraldo de Sousa Junior. O episódio é um marco simbólico na mudança da cultura política da Universidade de Brasília, que teve como estopim a invasão da reitoria por estudantes que a ocuparam até a renúncia de Timothy Mulholland, no ínicio desse ano, em decorrência das acusações de má versação de dinheiro público. Após os trâmites burocráticos, foi concretizado o resultado da consulta paritária à comunidade, formada ainda por servidores e professores.

Por outro lado, o futebol, que funciona como uma diferenciada arena social na sociedade brasileira, submete-se a um duro golpe contra essa mesma democracia. O jogo da seleção masculina contra a equipe portuguesa terá uma arquibancada formada por 1/3 de autoridades e torcedores extorquidos a gastar muito dinheiro, na esperança de presenciar um espetáculo de entretenimento e arte desportiva.  O Estadão registrou a digna fala de majestade do secretário de esporte do Distrito Federal, deputado Agnaldo de Jesus:

Quem você acha que vai se lembrar do governador, a autoridade ou o torcedor? (…) Se você vai inaugurar uma rádio, um jornal, você vai convidar quem? Os ouvintes, os leitores? Não. Você vai convidar as autoridades.

No embate entre a universidade e o futebol, o ambiente acadêmico se abre para a democracia e submete a meritocracia do saber científico ao crivo das demandas sociais, ao mesmo tempo em que a celebrada paixão esportiva da nação é colonizada pelo dinheiro e o poder político privatizado.


3 pensamentos sobre “Em Brasília, dezenove horas

  1. Pingback: Desde criancinha… « Hiperfície

  2. OK, 6×2, o placar não deixou o gosto de prejuízo para quem queria uma festa.

    Mas que fique registrado o protesto, que não tem a ver com o futebol em si, mas com a provatização do que deveria ser uma espetáculo público; com cobrança de ingresso, sim, mas sem privatização, sem o jogo de interesses particulares a ocultar a vontade pública de ter o seu circo.

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