Instituto Interdisciplinar de Estudos da Cultura

Por motivos variados, troco de estratégia e em vez de seguir com a série de posts sobre interdisciplinaridade, vou “entregar logo o ouro”:  estou apoiando a criação do Instituto Interdisciplinar de Estudos da Cultura.

Segue reprodução integral da Carta em apoio à criação do IIEC, dirigida aos membros do  CONSUNI – Conselho Universitário da UnB:

Acreditamos que o espaço universitário não pode ser uma estrutura rígida, engessada e na qual podemos apenas nos encaixar. Ele deve estar em sintonia com mudanças e demandas sociais – seja reagindo a elas, seja motivando-as. Isto se torna mais nítido nessa época de mudanças na qual gestões e formas de gestão vêm sendo questionadas pela comunidade universitária da Universidade de Brasília e por setores da população brasileira. Visamos uma universidade que – seja enquanto espaço de produção e avaliação crítica de saberes, seja enquanto espaço de mobilização social – acolha em si a abertura e a possibilidade de criação de outros espaços e espaços outros.

Partindo dessa visão de universidade; nós, estudantes de graduação e pós-graduação, professoras(es), militantes de movimentos sociais e estudantes não vinculados a universidade, acolhemos com entusiasmo a criação de um Instituto de Estudos Culturais na UnB que abrigasse cursos de pós-graduação, de graduação e programas de extensão e pós-doutoramento. Buscamos um espaço que acolhesse produções de saberes e análises críticas interdisciplinares da cultura, sendo esta entendida não como um objeto de pesquisa reificado e parado no tempo, mas dentro de um contexto social no qual figuram redes de poder, resistência e dispositivos de dominação. Ainda que em cursos de História, Filosofia, Sociologia, Pedagogia, Comunicação, Artes, Antropologia, Lingüística, Teoria Literária, Psicologia tenhamos acesso a um conjunto de ferramentas analíticas e bases teóricas que nós permitam aproximarmos de temas de nossos interesses; dentro de um curso ficamos restringidas(os) a nós dispormos apenas de métodos, ferramentas analíticas e formas de divulgação de conhecimento dessa área. Mesmo que, ao longo de uma graduação ou pós-graduação, aproximemo-nos de outros departamentos cursando suas disciplinas, no momento da produção do saber há um enorme engessamento disciplinar. Falta um espaço que não só permita a aproximação com diferentes ferramentas de análise, mas também que acolha e valorize essa interdisciplinaridade na produção e análise crítica de saberes.

Ao longo dos anos, com bastante dificuldade, temos tentado construir espaços como esse, participando de grupos de pesquisa, construindo grupos de estudos, buscando matérias que contribuam com esses temas, etc. No entanto, a abertura de um instituto nos possibilitaria a consolidação desse campo de estudos e pesquisa. Consolidação que não representa um engessamento disciplinar, mas a possibilidade de criar uma rede de interlocução dentro da universidade (com a graduação, pós-graduação e programas de pós-doutoramento) e com outras universidades (a partir de redes de estudos culturais e de parcerias com cursos como esse em toda a América Latina).

Os Estudos Culturais também trazem em sua gênese a aproximação com movimentos sociais, aproximação que nos é cara dentro de um projeto de universidade que realmente seja sensível à comunidade e se veja dentro dela. Assim pensamos em um espaço no qual aja uma abertura de projetos de pesquisa e extensão para graduandas(os), pós-graduandas(os) e também para professoras(es), criando lugares onde esses dois campos se entrelacem (a pesquisa informando a extensão e vice-versa). Basicamente, empenhar-se-ia no contato com o campo permanente, para uma produção, que em proximidade com a comunidade e com movimentos sociais, seja práxis e não de gabinete.

Outro ponto de nosso interesse é a construção de um espaço na qual críticas a dispositivos de poder e dominação – tais como os estudos feministas, as teorias pós-coloniais, as críticas anarquistas, as críticas marxistas à cultura, os direitos humanos, as reflexões sobre interculturalidade, as reflexões sobre a indústria cultural, as lutas anti-racistas e quilombistas, etc – não sejam marginalizadas ou restringidas a uma área fechada dentro de um escaninho de um departamento. Tais temas devem percorrer nossas reflexões da mesma forma como os dispositivos de opressão percorrem sem exclusividade no mundo social.

Em breve, retomo a explanação de motivos pelos quais entendo que o nascimento de um Instituto como esse seria um ótimo começo para o nascimento de uma nova Universidade de Brasília, até pela própria idéia a que me remete a palavra “universidade”.

Por hora, ressalto apenas que apóio mais a idéia do movimento do que a defesa de uma ou outra linha teórica. O embate entre marxismas e  neo-liberais me é mais caro do que o marxismo em si, ou qualquer outra ideologia ou orientação teórica. Mas  tem sido extremamente difícil estabelecer qualquer diálogo sério para  explorar e problematizar teorias críticas às relações de poder estabelecidas pelo costume, às estruturas habituais de significado, as práticas econômicas de desumanização das pessoas ou mesmo ao dia-a-dia excessiva e progressivamente especializado da academia.

9 pensamentos sobre “Instituto Interdisciplinar de Estudos da Cultura

  1. Eu fico muito animada com essa idéia. Nunca entendi nem mesmo a distribuição espacial dos cursos na UnB. Ficam isolados uns dos outros. Espero que o Instituto saia do papel.🙂

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