Solução problemática

Sempre que vejo números sobre a indústria automobilística brasileira eu fico extremamente consternado. Os resultados positivos sempre foram muito comemorados, como sinal de uma economia robusta e em crescimento. Agora, em tempos de crise econômica mundial, o aumento da produção de carros é lido como algo extremamente positivo, para os empregos por exemplo, e soa como uma solução para os problemas. Sou radicalmente contra, pois os carros, em si, são um problema.

Antes da crise, o grande tema da pauta mundial era o meio-ambiente. Desde os esforços de John Kerry até o filme dos Simpsons, todo mundo tava muito aí para os problemas do planeta. Achei que isso fosse repercutir na mentalidade mundial, mas pelo jeito, não fez um efeito profundo. O Dia Mundial Sem Carro, por exemplo, é ainda um evento para sonhadores e luta por tranporte público digno é uma utopia.

Carros são máquinas interessantes, mas muito pouco eficientes se ocupadas sómente pelo motorista e movidas a combutíveis fósseis. Basta considerar o espaço, a quantidade de peças e energia: é um trambolho em movimento que, disperdiçando um monte de giros do motor, leva apenas uma pessoa de um ponto para outro e depois fica lá, paradão, ocupando lugar, até ser acionado de novo.

Moro em Brasília e sei que desde a sua contrução a indústria automobilística influi na estruturação do espaço no Brasil de forma brutal. Trens num país como o nosso seriam uma solução tão simples, mas a capital nacional se liga ao resto do país por autoestradas em péssimas condições.

E nas cidades, a organização urbana não pode mais depender da existência de carros. Eles são a gordura que entopem nossas artérias de asfalto, mas a gente continua montando mais e mais, sem parar. O transporte coletivo funcional e limpo é uma necessidade deixada de lado. Os governantes vão adiando, usando a inauguração de estações e linhas de metrô apenas como grandes acontecimentos em suas gestões de puros interesses eleitorais. Deu problema, cada rico que entre no seu helicóptero e o povo que se dane. Se não der, uma ilha de ar condicionado e conforto sobre quatro rodas quebra o galho.

Feliz mesmo vou ficar o dia que o Jornal Nacional anunciar com algum orgulho a diminuição da frota nacional de veículos, e o paraíso vai ser o dia em que a última fábrica de carros pessoais, após produzir sua última unidade, for transformada num museu respresentativo de uma época extinta.

Pelo jeito, vai demorar.

6 pensamentos sobre “Solução problemática

  1. só ando de onibus faz 4 anos e sou mais feliz, sem dúvida. carro é uma coisa meio estúpida, se você parar pra pensar bem: número um assassino de pessoas, só pra não repetir os motivos que você colocou. todo mundo conhece alguém que foi vítima de um “acidente” de carro, que se chama exatamente “acidente” pq ninguém quer tomar responsabilidade por ele.

    • Não é não gostar de carros.
      Só perceber o mal que eles fazem pras cidades.
      Eu tenho meu carro também.
      Mas estou pensando seriamente em tentar me livrar dele e da necessidade de ter um.
      Mas não basta agir sozinho, porque, né, as pessoas compartilham o espaço urbano.

  2. Junte-se a tudo isso, Rená, o fato de estarem as montadoras buscando cada vez mais criar carros mais econômicos. Veja o exemplo do Tata Nano, lançado como o carro mais barato e econômico do mundo num país de mais de 1 bilhão de habitantes. É assustador.
    Seu texto também me fez lembrar de um outro problema: a carona. Estudo na UFV, em Viçosa, e vejo diariamente carros passando por um ponto de carona que fica na porta de entrada da universidade passarem sem nem ao menos olhar para o pessoal que espera uma carona.

    É triste. É real.

    • De fato, Rodrigo, os agentes econômicos sempre sabem bem como responder à realidade, a fim de ganharem mais e mais lucro. Cabe às pessoas pensarem os limites desse negócio, dessa cultura, dessa forma de vivier. Até onde os carros podem nos levar?

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s