Como um pão no forno

originalmente publicado em Rascunho, em 17 de janeiro de 2006

Sentia que seus dedos queriam brincar. As mãos sentiam falta da lapiseira e da borracha, mas a mente estava muito ocupada com as sensações para dar atenção aos sentimentos. Os seus sentidos o inundavam com informações sensacionais. Era como se o corpo todo, desde a cabeça, fossem pés quentes, do tipo que não são obrigados a nada se não a caminhar e amar, livres do frio que ataca quando, deitados na cama, pensam na saudade dos caminhos do amor que não perseguiram durante o dia.

O texto que lhe ocorria (talvez uma letra de música) já tinha título: “bucólica”. Teria uma temática calma e campestre, porém cheia de cores. Falaria de doces expectativas e de leves esperanças passando pela cabeça, num movimento muito semelhante a brancas nuvens contempladas num céu azul (dessas que  são  facilmente identificadas com outras coisas por olhos lúdicos e inocentes quando deitados confortavelmente na grama). Citaria obscuramente algum trecho de algum autor mais ou menos famoso, na intenção vã de que alguém reconhecesse e o elogiasse.


Mas não vai ser dessa vez. Mais uma vez. É que se às vezes 
ele até chegava a sentir alguma coisa ali, entre o clique da luz e o começo do sonho, e memórias (que encadeavam alguma saudade ou autopiedade) e considerações incertas sobre autoestima (um pouco de impostura, um pouco de javanêsiam se acumulando e mesclando de uma forma absolutamente harmônica e criativa, num crescendo promissor… de repente Morfeu resolvia passar cavalgando carneirinhos e a ele só restava perceber que sua própria consciência já não era exatamente o seu território naquele instante. Um evento criativo bastante irônico.

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11 pensamentos sobre “Como um pão no forno

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  4. Não sei se tenho a mesma linha de raciocínio. Mas não acho o hiper pouco e insuficiente, acho infinito e inalcançável, cheio de possibilidades. =]

    • O hiper não é pouco, ele só não satisfaz, daí, insuficiente. 2 horas de MSN não se compara a 2 minutos de um abraço. As possibilidades são infinitas, mas essa relação de insuficiência é inafastável. Daí vc vicia, pq sempre rola de ter mais, pq é facil, eficiente e vc não está satisfeito nunca.

      • Ah ta entendi. Mas mesmo assim eu falei somente sobre a hiperfície, assim como na hipermídia.
        Eu também prefiro mil vezes 2 minutos de abraço do que 2 horas de MSN. Mas ai eu estaria querendo comparar o meu mundo real com as possiblidades da hiperfície.

        Não seria como comparar o pão no forno (pão mesmo) com um rico e chamativo catalogo de pães e doces online? =P rss

        Nao posso misturar, hoje nao me vejo fora do hiper mas também nao faço dela a minha realidade.

  5. Uma vez li algo que resume tudo isso: “o hiper é pouco, e vicia, o q é pior, pq é sempre insuficiente”.
    Desde então, passei a acreditar mais, sofrer menos e deixar o novo acontecer.

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