O jeito foi ir dormir

originalmente publicado em Rascunho, em 08 de outubro de 2004,  atualizado em 05/06/2012

Não! Não!

Não, não, não, não, não. Ele repetia sozinho ao som da estática do monitor. Julgava inacreditável, mas era verdade.

A língua portuguesa se mostrava pobre. Na verdade, para aquele momento, todos os palavrões pronunciáveis em todas as línguas do mundo seriam insuficientes. A mão fria suportando a testa franzida e os olhos querendo se virar para dentro como avestruzes. Teria ele pregado chiclete na cruz em outra encarnação?

Horas naquele texto. Horas. Horas durante as quais neurônios morreram aos montes enquanto ele lutava contra aquelas teclas. Ele havia encarado aquilo como uma guerra, na qual ele resistira e lutara até o fim: incluir, retirar, reduzir, sublinhar, negritar, sintetizar, expandir, pontuar, repensar, corrigir – inclusive os erros de estilo e as novas mudanças na gramática – tudo em nome do melhor labor mental.

Pois eis que, ao fim do esforço, após o parto da obra, quando ele se sentia no ápice de sua capacidade intelectual, um lapso de seu corpo cansado revelou como podem ser simples as idiotias que um ser humano se faz capaz de cometer. Sem alcançar a tecla “delete”, para apagar aquele único espaço que sobrara após o último ponto final, seu dedo tocara a tecla redonda, aquela com um desenho de um traço e um círculo, aquela maravilha tecnológica que servia de atalho no teclado para, de forma bem prática, desligar o computador dos descuidados. Ele foi descuidado e apertou o botão errado. E, de forma bem trágica, perdeu tudo. Tudo, tudo, tudo. Não, não, não, não.

Isso aconteceu em 2004. Ainda se lembra bem de sua versão pirata do mais utilizado sistema operacional. E das frias letras brancas no fundo azul do monitor, indicando que o computador estava “pronto para ser desligado com segurança”.

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4 comentários sobre “O jeito foi ir dormir

    • Eu lembro com detalhes do primeiro dia em que escrevi meu nome num computador de tela preta com letras verdes, o famoso monitor de fósforo verde. E a emoção de atravessar meio andar do prédio do Banco do Brasil e ver a impressão sair em um papel contínuo. Foi entre 1991 e 1993. Eu vivi essa época também ;)

    • Isso me martiriza…
      Engraçado que é um texto completamente datado.
      Hoje em dia esse botão, quando existe, nem se encontra mais nesse lugar inconveniente, no meio do teclado; e a tal tela azul do Windows então, parece até lenda.

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