A cotovia (autorretrato)

versão em português de um dever de casa em alemão

Em visita ao Museu Nacional da República no dia 04 de abril de 2009, entre as obras dos artistas  alemães da Worpswede expostas, chamou-me a atenção a gravura entitulada “A cotovia (autorretrato)“, feita em 1989 por Heinrich Vogeler, então com 17 anos.

The 'Monocle Mania' Motto! por MonocleA imagem, em preto e branco, contrapõe um homem em pé, um pouco à esquerda do centro, que com as mãos para trás olha em direção à um distante uma ave, posta um pouco à direita do centro. Além da cartola, do sobretudo e das botas, vê-se da roupa do homem apenas o detalhe de uma gola branca bufante de sua blusa. Ele traz uma bengala e, observando atentamente, percebe-se que em uma das mãos segura um pequeno monóculo, objeto normalmente utilizado para ver de perto (um detalhe essencial para a compreensão da arte dessa figura). A cotovia por sua vez não passa um detalhe.

A maior parte da pequena obra tem um fundo em branco, que vem do topo até a altura do cano das botas do homem. Assim, apenas uma leve porçao inferir da gravura, contém informações sobre o cenário. De baixo para cima, vê-se o gramado no qual o homem está em pé. Em seguida, poucas casas em meio a uma densa floresta e, por fim, o que parece ser o mar define a fina linha do horizonte, na altura do encontro do sobretudo com as botas.

A cotovia (autorretrato)

A cotovia (autorretrato), de Heinrich Vogeler

Na minha opinião, a obra tem um especial componente metaliguístico. É que para se apreciar com mais precisão os aspectos da gravura e perceber os impresionantes traços dessa complicada modalidade de criação é preciso olhar bem de perto. Entretanto, o protagonista está justamente olhando uma imagem ao longe, apreciando o que está distante. A indicação mais forte disso está no pequenino monóculo, que quase só é perceptível com o uso de uma lupa. O monóculo que está sendo dispensado, posto para trás, resume a oposição entre quem vê a gravura e o que ela representa. Isso fez com que quem observa se perceba como observador, e ressalta a interação com a obra, bem como com o próprio artista. Trata-se, afinal, de um autorretrato.

Vale dar uma ida ao Museu, entrar de graça e passar um tempo olhando presencialmente para essas pequenas belezas.

4 pensamentos sobre “A cotovia (autorretrato)

  1. Que lindo.
    Dá pra interpretar o sentido gadameriano da distância (necessária?) entre objeto e observador… e, ao mesmo tempo, inverter os papéis, quando se trata do observador que aprecia a obra de arte, e do homem que aprecia a cotovia. Lindo.
    Beijos!

  2. Vou publicá-lo aqui mesmo, assim que fizer as correções gramaticais indicadas pela Profª.

    Mesmo com a melhor descrição (obrigado pelos elogios, hehehe), nada substitui a sensação de ver a gravura presencialmente.😉

  3. PQP!
    Perfeito, não foi preciso estar lá para imaginar tudo isso, vc conseguiu descrever perfeitamente a cena e os objetos. Estou exercitando isso no curso de roteiro, depois te conto.
    Tipo de post que amo ler, manda o texto em alemão depois.
    Küss.

  4. Também me encantei com o Vogeler, que não conhecia até visitar o Museu. Suas gravuras são simplesmente lindas! Gostei muito de um pequeno detalhe: as bordas.
    Desconfio que eu deveria ter nascido naquela época.

    Pena que a exposição já acabou. Voltaria com muito prazer.

    Bom texto!

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