O fogo frio

Texto meu, escrito em papel no ano de 2007

Queria que houvesse ciência o bastante sobre essa dimensão destrutiva. Há apenas essa certeza de um futuro cinzento e da eterna lembrança da dor sentida. A dor em si passa. Um dia.

Não há, no entanto, argumento racional que, convencendo minha consciência, afaste essa obsessão que compele minha vontade a tais atos deploráveis e que fixa em minha face essa expressão tão pesada.

Pior é ver tudo acontecer à minha volta e me sentir preso no epicentro desse movimento catastrófico. Minha inércia volitiva é a fonte dessa dinâmica do caos.

Não há irracionalidade. Meus atos são partes de complexos planos esquemáticos, harmonicamente direcionados a saciar minha compulsão monotemática. O raciocínio, então, existe e é mais lógico do que eu gostaria. Mas não são voluntários. Não estou plenamente consciente, senão para me condenar a cada instante posterior.

Minhas dúvidas só se deixam substituir pela certeza do erro nas decisões. Não o erro quanto ao alcance do fim. Eu o atinjo. O problema, o erro, é continuar me direcionando para esse tal fim, que é na verdade o meu fim.

Eu já não sou completo. Sinto falta de me dividir. E essa obsessão dará fim a essa falta, mas acabando comigo no processo, e não preenchendo o vazio entre meus dedos, meus braços, meus lábios.

Estou queimando meus navios.

Um pensamento sobre “O fogo frio

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