Raças e cotas

Dificilmente o debate sobre a adoção do sistema de cotas é formulado em termos tão ponderados. Reproduzo abaixo,a opinião de Contardo Calligaris, que traz uma sutil mas fundamental diferença em relação ao pensamento sustentado por Demétrio Magnoli e compania.

O autor concorda com os alegados efeitos sectários da assunção de uma identidade negra coletiva, com a idéia de que isso imprime uma separação na sociedade, mas parte do pressuposto de que o racismo já existe e, portanto, o movimento não cria o precoceito, ele o sublinha.

Sinceramente, não admitir que a separação racial existe no Brasil e merce uma política estatal de combate é tão coerente quanto tentar varrer um bode pra debaixo do tapete. Segue o texto.

São Paulo, quinta-feira, 01 de outubro de 2009

CONTARDO CALLIGARIS


As cotas só afirmam as diferenças com as quais sonham os racistas? Ou podem mudar algo?

PERTENCEMOS A uma única espécie: a espécie humana.

Quanto a isso não há dúvida, visto que procriamos alegremente sem que as diferenças étnicas ou raciais atrapalhem o bom funcionamento sexual e reprodutivo. Mas só 250 anos atrás, na América do Norte e na França, foi proclamado o princípio de que, por pertencermos à mesma espécie, temos todos os mesmos direitos, independentemente de etnia, cultura, religião, gênero, berço e cor (da pele, do cabelo ou dos olhos).

Desde então, tal princípio vem se afirmando, aos trancos e, sobretudo, aos barrancos, por várias razões. 1) Há etnias e culturas que não topam aquela ideia proclamada 250 anos atrás.

2) Não conseguimos decidir se nossa igualdade de direito deve implicar ou não uma igualdade de fato. Depois de algumas tentativas desastradas, parece que concluímos que o importante é que todos tenhamos ao menos oportunidades parecidas no começo da vida. Estamos longe disso.

3) Mesmo acreditando na unidade da espécie e na igualdade dos direitos, adoramos pertencer a uma turma e continuamos enxergando um mundo dividido em nações, etnias, raças, classes, torcidas etc. Claro, prezamos nossa singularidade e, por isso, queremos ser contados um a um, como indivíduos, cada um diferente e único dentro da espécie comum. Mas também gostamos de privilégios, e os privilégios são mais “agradáveis” quando são negados a um grupo de excluídos: sala VIP só tem “graça” se os outros esperam no saguão do aeroporto. Em suma, no mínimo, a vontade de sermos singulares nos induz a criar grupos de discriminados, “diferentes” de nós.

4) As vítimas dessa discriminação, na hora de invocar o princípio da igualdade de todos para obterem os mesmos direitos dos demais, são obrigadas a se constituírem como grupo. Sem isso, sua reivindicação não teria chance alguma: o protesto de um negro discriminado será sem efeito se não existir algum “movimento negro”.

Em tese, os grupos de vítimas da discriminação deveriam ser fundados em “identidades de defesa”, ou seja, identidades que surgem provisoriamente, de maneira reativa. Por exemplo, “os negros” existem como grupo, aos olhos dos racistas, para serem discriminados; ora, a luta contra essa discriminação exige uma identidade positiva, de modo que os negros possam existir como grupo na hora de se opor à sua discriminação. No caso, eles afirmarão e valorizarão uma improvável ascendência racial comum. Problema: ao defender-se, eles darão crédito à mesma diferença inventada pelos racistas a fim de discriminá-los.

O perigo é que essas identidades, adotadas para lutar contra a discriminação e permitir, enfim, uma sociedade de indivíduos iguais, acabem consolidando as próprias diferenças que tratam de abolir. Por exemplo, uma política de cotas reservadas a negros e pardos (na universidade, no emprego público e mesmo no setor privado) é uma maneira de se opor à discriminação, mas, para funcionar, ela exige que a gente acredite nas diferenças raciais e as estabeleça como parte da identidade do cidadão -que é exatamente a situação com a qual o racismo sonha desde sempre.

Esse argumento é crucial no livro de Demétrio Magnoli, “Uma Gota de Sangue” (ed. Contexto), que é, ao mesmo tempo, uma excelente história e apresentação do racismo no mundo moderno e uma crítica das políticas de cotas por elas necessariamente confirmarem a existência de diferenças raciais que não têm realidade biológica e cujo fundamento histórico é o próprio racismo.

Isso, logo no Brasil, onde a mistura das cores deixaria esperar um enterro mais rápido da categoria de raça. Compartilho com Magnoli o sonho de uma sociedade em que a cor da pele seja indiferente. Mas minha avaliação das políticas de cotas é “matizada”. Quando cheguei nos EUA, em 94, eu pensava como Magnoli, ou seja, previa que o sistema de cotas, instituído para “compensar” os efeitos da discriminação, dividiria o país, levando-o de volta para o século 19. Não foi o que aconteceu. Aos poucos, a presença de cidadãos de todas as cores na maioria das corporações (da polícia urbana ao corpo docente das universidades) se transformou num duplo valor compartilhado por todos ou quase: um valor estético (a diversidade é bonita) e um valor produtivo (a diversidade é funcional).

Até que um dia pareceu lógico, num país cujo sul inteiro foi racista e segregado, que um negro pudesse ser presidente.

2 pensamentos sobre “Raças e cotas

  1. Não obstante todas as mazelas e as desigualdades sociais e econômicas que caracterizam esse nosso Brasil – país continente – do Amazonas ao Rio Grande do Sul,alguns avanços trazidos através de políticas governamentais brasileiras, principalmente ao tocante aos dois últimos Presidentes, Fernando Henrique e Lula para grande parcela da população (leia-se região amazônica, Pará e nordeste).
    Alguns exemplos: O advento do Plano Real (fim da inflação) a criação do bolsa-escola-bolsa-família, o seguro-desemprego, a expansão daos meios de comunicação antes inacessível às camadas mais pobres, a expansão dos “orelhões”, ou telefônicos públicos, a popularização do telefone celular e fixo melhoraram consideravélmente a vida dos mais pobrees no Brasil.
    Aliado a isso, mecanismos jurídicos, garantiram, pelo menos em parte, a cidadania e a dignidade do brasileiro(a); o combate ao racismo emtôdas às suas formas, criação de mecanismos penais visando à proteção da mulher contra agressões,o assédio moral e sexual, a tipificação de crimes considerados
    hediondos, a criação e a consolidação dos Estatos da Criança e do Adolescente e do Idoso, a consolidação de estruturas no país visando o respeito aos direitos humanos, tudo isso, a meu ver, fez com que o Brasil seja um Brasil cada vez mais transparante e, aos poucos, melhorando sua imagem perante a comunidade Internacional.
    Nesse sentido os Procons e uma Justiça do Trabalho implacavél em defesa do trabalhador Brasileiro também muito contribuiu para os avanços sociais no Brasil.
    Sindicatos, Igrejas e associações comunitárias também desempenharam o seu papel.
    Há,COM CERTEZA, MUITO AINDA O QUE FAZER; MAS ESTAMOS NO CAMINHO CERTO.

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