Antifábula

originalmente publicado em Rascunho, em 06/10/2006

Na contramão das fábulas tradicionais, era uma vez um cordeiro de um pêlo muito fofo que um dia resolveu se fantasiar de lobo. O motivo do jogo? Ele não aguentava mais sentir-se bobo diante daqueles suspiros todos das ovelhinhas que conhecia desde muito novo. Para atrair os olhares para si, resolveu evoluir e ser mais atraente dali pra frente.

Um novo jeito no pêlo de cor preta e a fantasia de lobo ficou perfeita, pois mesmo com a aparência de carnívoro arredio, ele continuava sendo muito macio. Como lobo fofo, ele foi à forra com as fêmeas que antes não lhe davam bola. Eis que um dia o animalzinho teve uma idéia: como lobo entre iguais ele poderia se divertir muito mais badalando com as alcatéias. Descobriu então um mundo novo em sua história, recheado de algo inimaginável em seus tão humildes tempos de outrora: as lobinhas.

Ao contrário das ovelhinhas, que apenas suspiravam apaixonadas, as lobinhas também caçavam e causavam suspiros na lobada. Divertindo-se de verdade em meio a suas novas companhias, a satisfação que o cordeiro sentia parecia explodir em seu rosto, e volta e meia sorria uma felicidade no corpo todo. Era o auge da realização naquela vida de conquistas do lobo fofo.

Até que um dado dia, qual não foi sua surpresa quando uma lobinha, com quem muito se divertia, revelou ser ela também uma cordeira camuflada, e que tinha passado a posar de loba simulada como artifício para ser respeitada e se proteger de todos lobos que tanto lhe importunavam. Cúmplices em sua tática sofisticada, passaram a partilhar uma intimidade nunca imaginada. A cada dia, os dois trocavam relatos passados de uma forma quase mágica, e ambos falsos lobos iam se mostrando mais e mais fofinhos um pro outro.

Photo Sharing and Video Hosting at PhotobucketMas havia alguma coisa estranha e obscura na situação que fazia o lobo fofo sentir uma angústia acelerar seu coração. Sua expressão era de permanente alerta, como se estivesse sempre em perigo de uma ameaça certa. O fato, que o coredeiro demorou a perceber, é que, não importava quantas experiências novas eles viessem a viver, ele não conseguiria olhar para a lobinha e apenas vê-la como ovelhinha. Depois de tanto tempo de diversões predatórias, ele não conseguia afastar da memória a imagem dela como uma incontrolável máquina de caçar e aceitá-la tão doce e fofa como ele mesmo antes fôra.

Como solução para sua aflição, o lobo fofo veio com a sugestão de se assumirem pro mundo inteiro como sendo apenas dois cordeiros. Ela respondeu que ele não entendia como naquela altura da vida ela tanto dependia de sua fantasia de lobinha. Ela não podia simplesmente se assumir abertamente, e apenas seguiria sendo fofinha se fosse pra ele e daquela forma íntima. O lobo fofo achou que era pouco e não sorriu quando concluiu que tanto tempo sob a pele de lobo tinha feito mesmo muito mal para o seu pêlo fofo.

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