Olhos nos olhos

originalmente publicado em Rascunho, em 13/03/2005

Após ler a notícia na íntegra, entrou em transe. O resto do jornal caiu largado na calçada enquanto ele seguiu até o carro. Olhar fixo na manchete, a cabeça ia longe. Só pensava em todos aqueles discos, shows, autógrafos, fotos, entrevistas gravadas no vídeo cassete para ela ver mais tarde, sem falar na novíssima coleção de DVD’s que ele mesmo comprou de presente.

Ora, antes era algo intangível, longínquo. Achava engraçadinho e até contava com galhardia para os amigos. Mas agora estava ali, na cara dele. Havia um caso concreto, público e notório, estampado em capas de revistas.

Nenhum livro de auto-ajuda seria capaz de livrá-lo daquele incômodo. Aquilo o atacava no âmago de seu ser, quebrava as canelas de sua ética, que julgava inabalável, infalível. Não foi trabalhar.

Ao cair da noite, quando ela chegou em casa, assustou-se ao vê-lo no sofá. Mal sabia que atravessara o dia naquela única posição lacônica. Sentado, o corpo curvado sustentando a cabeça baixa e as mãos soltas segurando entre as pernas poucas páginas entreabertas de jornal.

Com o rosto de quem carrega o mundo nas costas, seu olhar faiscou e ele se expôs. Entre lágrimas escorridas, a voz saiu-lhe da boca rompendo o silêncio:

– Você também me trairia com o Chico Buarque?

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s