Imprensa e Redes Sociais: “O Ataque dos pássaros”

Na última semana ri muito ao ler no twitter a brincadeira do #DilmaFactsByFolha. A ombudskvinna da Folha, Suzana Singer, apontou esse domingo não apenas o desequilíbrio na cobertura da disputa às eleições, mas a reação dos internautas, veiculada pelo Twitter. Além de se mostrar honestíssimo como autocrítica, o texto registra um episódio simbólico do atual relacionamento entre um grande veículo da imprensa e uma rede social.

A esfera pública fica enriquecida com a comunicação em rede que acontece no twitter, em especial com a organização viabilizada pelas ferramentas da hashtag e dos trending topics. O simples uso da “#” permite às pessoas se perceberem como um conjunto, e não apenas como indivíduos. De ilhas para arquipélagos, essa aglutinação aplifica a repercussão, pois ao mostrar um comportamento como coletivo gera uma certa legitimidade, um conforto de pertencer a um grupo que tem a mesma opinião. A relação leitor / jornal se transforma, e há um deslocamento em que o jornal é cobrado a noticiar seus próprios leitores. Daí que é bastante oportuna a referência do título da coluna à história filmada em 1963 por Hitchcock.

A “mesa de buteco” que é o twitter tem um efeito público, político, comunicativo e social inegável. E o contato hiperficial – cada contato interpessoal diferido no tempo e no espaço – está na estrutura desse efeito. A intensidade e a relevância variam, mas ele está ali. O #calabocagalvao era apenas uma piada, o #DilmaFactsByFolha tem um tom de crítica à imprensa que pode parecer, para um grande jornal, uma grande história de suspense e medo. Mas há aqui um potencial democrático, e que ainda está longe de ser explorado em toda sua capacidade.

Chega de falar, segue o texto integral da coluna, disponível também no blog do Luis Nassif.

São Paulo, domingo, 12 de setembro de 2010

OMBUDSMAN

SUZANA SINGER – ombudsman@uol.com.br @folha_ombudsman

O ATAQUE DOS PÁSSAROS


A manchete de domingo desencadeou uma onda anti-Folha no Twitter, que o jornal ignorou 


A FOLHA VEM se dedicando a revirar vida e obra de Dilma Rousseff. Foi à Bulgária conversar com parentes que nem a candidata conhece, levantou a fase brizolista da ex-ministra, suas convicções teóricas e até uma loja do tipo R$ 1,99 que ela teve com uma parente no Sul. Tudo isso faz sentido, já que Dilma pode se tornar presidente do Brasil já no primeiro escrutínio que disputa.
Mas, no domingo passado, o jornal avançou o sinal ao colocar na manchete “Consumidor de luz pagou R$ 1 bi por falha de Dilma”. O problema nem era a reportagem, que questionava a falta de iniciativa do Ministério de Minas e Energia para mudar uma lei que acabava por beneficiar com isenção na conta de luz quem não precisava.
Colocar uma lupa nas gestões da candidata do governo é uma excelente iniciativa, mas dar tamanho destaque a um assunto como este não se justifica jornalisticamente.
Foi iniciativa de Dilma criar a tal Tarifa Social? Não, foi instituída no governo Fernando Henrique Cardoso. É fácil mexer com um benefício social? Não, o argumento de que faltava um cadastro de pobres que permitisse identificar apenas os que mereciam a benesse faz muito sentido. Existe alguma suspeita de desvio de verbas? Nada indica.
O lide da reportagem dava um peso indevido ao que se tinha apurado. Dizia que a propaganda eleitoral apresenta a candidata do PT como uma “eficiente gestora”, mas que “um erro coloca em xeque essa imagem”. Essa tem que ser uma conclusão do leitor, não do jornalista.
Uma manchete forçada como a da conta de luz, somada a todo o noticiário sobre o escândalo da Receita, desequilibrou a cobertura eleitoral. Dilma está bem à frente nas pesquisas de intenção de voto e isso é suficiente para que se dê mais atenção a ela do que a seu concorrente, mas, há dias, José Serra só aparece na Folha para fazer “denúncias”. Nada sobre seu governo recente em São Paulo. Nada sobre promessas inatingíveis, por exemplo.
Os leitores perceberam a assimetria. Durante a semana, foram 194 mensagens à ombudsman protestando contra o noticiário, mas o maior ataque ocorreu no Twitter, a rede social simbolizada por um pássaro azul, que reúne pessoas dispostas a dizerem o que pensam em 140 caracteres. Até quinta-feira passada, tinham sido postadas mais de 45 mil mensagens anti-Folha.

CRIATIVIDADE
Os internautas inventaram manchetes absurdas sobre a candidata de Lula: “Empresa de Dilma forneceu a antena para o iPhone 4”, “Dilma disse para Paulo Coelho, há 20 anos: continue a escrever, rapaz, você tem talento!”, “Serra lamenta: a Dilma me indicou o Xampu Esperança” e “Errar é humano. Colocar a culpa na Dilma está no Manual de Redação da Folha“.
O movimento batizado de #Dilmafactsbyfolha virou um dos assuntos mais populares (“trending topics”) do Twitter em todo o mundo, impulsionado, em parte, pela militância política -segundo levantamento da Bites, empresa de consultoria de planejamento estratégico em redes sociais, 11 mil tuítes usaram um #ondavermelha, respondendo a um chamamento da campanha do PT na rede. Até o candidato a governador Aloizio Mercadante elogiou quem engrossou o coro contra o jornal.
Mas é um erro pensar que apenas zumbis petistas incitados por lideranças botaram fogo no Twitter. O partido não chegou a esse nível de competência computacional.
Na manada anti-Folha, havia muito leitor indignado, gente que não queria perder a piada, além de velhos ressentidos com o jornal.
Não dá para desprezar essa reação e a Folha fez isso. Não respondeu aos internautas no Twitter e não noticiou o fenômeno. O “Cala Boca Galvão” durante a Copa virou notícia. No primeiro debate eleitoral on-line, feito por Folha/UOL em agosto, publicou-se com orgulho que o evento tinha sido um “trending topic”. Não dá para olhar para as redes sociais apenas quando interessa.
A Folha deveria retomar o equilíbrio na sua cobertura eleitoral e abrir espaço para vozes dissonantes. O apartidarismo -e não ter medo de crítica- sempre foram características preciosas deste jornal.

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