Café com gosto de óleo de máquina

Foto "Café", de Leandro Rodrigues Magalhães de MarcoDe repente me bateu uma vontade de contar uma história em que eu estivesse tomando um café com gosto de óleo de máquina. Uma história em que eu, com o copo de plástico na mão, fosse surpreendido com uma notícia bombástica sobre algum acontecimento em outra parte do mundo, mas que tocasse profundamente a minha vida pessoal. Ou uma história leve, sobre um dia de trabalho tedioso de tão calmo, cujo momento mais alto fosse pagar mais do que deveria por uma xícara de café com gosto de óleo de máquina.

Quem sabe um personagem que simplesmente odiasse café com gosto de óleo de máquina, alguém que não fosse eu, mas que fosse hábil no uso excessivo de palavras sarcásticas, nas quais eu pudesse estampar uma opinião que normalmente guardo no fundo dos meus pensamentos e não digo para ninguém. Eventualmente uma personagem feminina, uma mulher ou uma garota jovem, passando por um sofrimento doméstico enquanto prepara um café com má vontade, como forma de denunciar indiretamente algum hábito social sutilmente machista. Também poderia ser uma fábula, um conto fantástico, com feitos grandiosos que funcionasse como sólidas metáforas, elaboradas para espelhar o desgosto do herói e seus companheiros de luta com o cenário político do momento, pegajoso e intragável como um café com gosto de óleo de máquina.

Narrar a história de um garoto, uma versão infantil e idealizada, cujo estranhamento diante da novidade do mundo viesse condensada na expressão de um rosto que conhecia pela primeira vez o cheiro característico que só uma boa xícara de café sabe ter. E esse garoto, já envelhecido, estaria agora lembrando de sua avó e de sua infância, enquanto sorve com desdém o gosto amargo de um café requentado e fedorento, cujo gosto de óleo de máquina só aumentava a saudade dos tempos de outrora, quando não tinha horários a observar nem obrigações a cumprir. Seria ainda melhor uma história que conseguisse fugir da armadilha dos clichês nostálgicos e moralistas que são evocados com a imagem melancólica de um café com gosto de óleo de máquina.

Porquê não inverter a premissa? Um óleo de máquina de aparência completamente asquerosa, mas que de repente a boca descobre ter um delicioso sabor de café, a ponto de garantir ao líquido a alcunha honrosa de uma bebida. Isso, um óleo de máquina com gosto de café! Mas em que mundo paralelo teria o mínimo sentido fictício alguém se ver na circunstância de tomar um nojento óleo de máquina? Uma tortura policial sádica, com rosquinhas para enganar? Um engano desatento de um mecânico de automóveis na hora do almoço? Um desafio adolescente e testosterônico, aceito corajosamente como um rito de passagem? O suicídio de um frentista, traído pela dona do posto, sua namorada de longa data?

Talvez a saída mais honrosa estivesse em simplesmente construir uma história de alguma forma irônica que ao final se revelasse gritantemente metalinguística ao divagar, errática como um vaporzinho de água recém fervida, até desenhar a imagem, nítida como uma nuvem, de um escritor angustiado em busca de uma história boa enquanto toma seu café com gosto de óleo de máquina.

4 pensamentos sobre “Café com gosto de óleo de máquina

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