Programas de TV no mudo

texto publicado originalmente em 04 de maio de 2004 às 23:23 como contribuição à versão antiga do blog Incubus Brazil

Histeria, faniquitos e gritinhos. Está no ar o programa “Truques humanos estúpidos“. Animais humanóides tratam humanos de forma desumana. Entre carrocinhas e correntes, pessoas adestradas executam performances ridículas. Um homem escolhe entre uma banana e um botão. O Zé Ninguém recebe como prêmio um salário mínimo. No final, uma virada na história mostra quem estava por trás de tudo e a audiência fica chocada. Na trilha sonora, uma melodia oceanicamente calma contrasta com o frenesi das imagens.

Um olhar mais atento e curioso sobre o videoclipe de Talk Shows On Mute permite inferir que a banda Incubus tomou um verdadeiro banho de George Orwell na época do álbum A Crow Left Of The Murder… (“Um corvo à esquerda do bando…“). O livro 1984, evocado expressamente no refrão, ganha a companhia de o outro livro ícone desse autor: A Revolução dos Bichos.

De quebra, a analogia na letra cita o livro de Phillip K. Dick, chamado “Do Androids Dream of Electric Sheep?” (“Os androides sonham com carneiros elétricos?“, que deu origem ao filme Blade Runner) e eu identifico ainda a dupla de pinguins vendo TV no clipe como uma alusão ao Mundo de Beakman. Mas menos erudição e referências da cultura pop, voltemos à reflexão filosófica.

Não parecem Don e Herb?

Não parecem Don e Herb?

A canção e as imagens constroem uma metáfora irônica para um domínio baseado em uma ética incoerente e num esvaziamento do respeito ao semelhante. Em sua simplicidade, é um cenário genial, no qual os bichos são representados como se tivessem “descido” ao nível dos humanos no tratamento entre as espécies, de tal forma que, ao final, não há distinção entre uns e outros. Claro, como toda boa metáfora ilustrativa, Talk Show On Mute é muito menos sobre os animais do que sobre a própria humanidade e a forma como as pessoas se relacionam uma com as outras e consigo mesmas.

Publicado em 1945, o famoso livro A Revolução do Bichos pode ser facilmente definido como uma satírica fábula contra o comunismo e o fascismo. Mas para além disso, trata-se de uma critica distópica a todas as formas de autoritarismo, hipocrisia, desrespeito às leis pelos que governantes que deveriam segui-la, enfim, de uma mitigação das regras essencialmente civilizatórias e humanizantes sem as quais o ser humano não se distingue dos outros animais.

No exercício de pensar sobre nós mesmos, não precisa ser nenhum gênio para entender que o entretenimento de massa tem como um dos seus efeitos colocar a sociedade num estágio semelhante à desumanização criticada por Orwell. Entendo que nem todo programa de TV entra nessa, bem como que não é porque alguém vê um reality show que a pessoa seja alienada de sua realidade. Afinal, seres humanos podem ser mais complexos que personagens lineares, e cada um ter os comportamentos dos mais diversos e incoerentes em sua vida diária.

stoff

Ainda assim, na linha dos versos finais, é de alguma forma melancólico ter que admitir que, para certas pessoas, realmente seria melhor se pudéssemos, com um botão, colocá-las no mudo e apenas apreciá-las, com o olhar distanciado, sem interesse no conteúdo do que elas falam, só observando sua postura ignorante-de-dar-pena. Mas a piada bate e volta. (Citando a canção Drive, também da banda Incubus) Eu diria que parece existir um “apelo em massa assutador” nisso de servir comodamente como audiência para os cérebros eletrônicos, de adotar uma personalidade vazia e variável, e de se prostrar assistindo estupefato à vida, cada vez mais artificial. Seria cômico se não fosse triste.

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