O conceito

Hiperfície é o ambiente social no qual as pessoas têm contatos hiperficiais. Os contatos hiperficiais não são superficiais, como os que alguém tem com seu vizinho, mas hiper, porque têm profundidade ilimitável e extensão indefinível.

Você toma parte na hiperfície não apenas quando usa o skype, mas também quando fala ao telefone, seja ele fixo, seja ele celular; ao se comunicar via microblog, blog, mensageiro eletrônico, carta, livro, hieroglifo e mesmo pintura rupestre. Sempre que as pessoas estão distantes no espaço ou mesmo diferidas no tempo.

Na hiperfície os detalhes da vida de uma pessoa são mais acessíveis  para as outras pessoas do que presencialmente. Assim, na hiperfície são maiores a probabilidade e as condições de pessoas distantes saberem mais umas sobre as outras do que pessoas que estejam bem próximas. Isso não depende da hiperfície para ocorrer. Mas a hiperfície, repito, aumenta as chances de isso ocorrer. Essa possibilidade se torna “hiper”, ou seja, mais intensa.

Hiperpresença

A noção de presença se torna nebulosa, havendo uma indistinção entre a presença própria e a presentificação. Em muitos aspectos, é indiferente se as pessoas estão de corpo presente ou se fazem uso de aparelhos que possibilitem a comunicação simultânea e à distância. Por outro lado, a diferença, a todo momento, pode se fazer evidente, assim que houve vontade de trocar um abraço, um beijo.

A representação é encurtada no tempo, e o representante e o representado se confundem. Quem está longe se faz perto, assim com o antes se faz agora, que por sua vez poderá se fazer depois. A percepção do espaço e do tempo é alterada, e com isso a própria expectativa de interação no espaço/tempo.

O prefixo hiper foi pensado para relacionar o conceito da hiperfície a noção de hipermodernidade, que define o mundo atual como a intensificação do ideal moderno, em todos os seus problemas e soluções. Nos anos 80, quando você estava no sofá da sua casa assistindo ao show da Xuxa e eu na minha, nós estávamos conectados na Hiperfície. Por isso que se eu fizer uma piada sobre a música quem quer pão você vai entender, mesmo que não estivéssemos presencialmente juntos quando estávamos fazendo a “mesma” coisa.

Se há escrita, há a hiperfície, pois a palavra materializada permite diferir a comunicação no tempo. Hoje nós podemos ler o que os gregos escreveram, como se fosse uma novidade. E é uma novidade, para quem nunca leu; e não é novidade, ao mesmo tempo, para quem já leu.

Na verdade, desde que há qualquer espécie de representação, há a hiperfície. A representação presentifica – torna presente – quem está ausente, ao mesmo tempo em que indica essa ausência. Quando se fala o nome de alguém que não está na conversa, lembra-se desse alguém ao mesmo tempo em que se percebe que esse alguém está ausente.

Por um lado, a “representação” faz as vezes da realidade representada e, portanto evoca a ausência; por outro lado, torna visível a realidade representada e, portanto, evoca a ausência; por outro, torna visível a realidade representada e, portanto, sugere a presença. Mas a contraposição poderia ser facilmente invertida: no primeiro caso, a representação é presente, ainda que como sucedâneo; no segundo, ela acaba remetendo, por contraste, à realidade ausente que pretende representar (GINZBURG, Carlo. Olhos de madeira: Nove reflexões sobre a distância. Tradução: Eduardo Brandão. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2001. P. 85).

Na hipermodernidade, essa distância se dilui, e a confusão se instala ocultamente na “instantaneidade” do contato, no tempo-real da internet, do celular e mesmo do avião.

Hiperrealidade

Pode-se existir em ambientes que superam a realidade presencial. Eu posso conversar “ao vivo” com alguém muito distante. Mais que isso, algo que eu diga agora pode ser ouvido muito depois. Há uma alteração no espaço e no tempo da comunicação. Se a escrita inaugurou a história, como registro dos acontecimentos, hoje os acontecimentos são registráveis de uma forma que supera os limites da realidade: hiperrealidade.

A representação do que é real se insere na realidade como dado igualmente real. O vídeo de uma celebridade disponível na internet circula como se a própria celebridade estivesse se expondo para o mundo todo, na casa de cada um.

Um campo interessante é a chamada “realidade aumentada“.

Hipervisão

Mais do espaço pode ser visto na hiperrealidade, de uma forma infinitamente mais acessível, do que na realidade presencial. Ferramentas como os Mapas do Google criam uma representação espacial que pode chegar a ser maior do que a coisa real, praticamente sem ocupar espaço.

Hiperespaço

De onde estou posso me comunicar instantaneamente com quem está em um lugar que eu nem sequer sabia que existia.

Hipertempo

Desde o início da escrita, há a preocupação de se estabelecer uma comunicação que supere o limite do tempo:

Este é o relato das investigações efetuadas por Heródoto de Halicarnasso, para que os feitos dos homens não se percam com o tempo e nem as grandes e admiráveis obras dos helenos e dos bárbaros fiquem sem glória. – Herótodo, no prólogo de Histórias

Atualmente, é fácil ver um vídeo como um resgate de uma época, ou ler uma carta e lembrar de coisas antigas. O lance é pensar que qualquer obra põe em contato o momento original com um futuro indefinível. Ou melhor, um futuro sempre redefinível, a cada momento presente. A intensificação atinge um grau inédito com as possibilidades de preservação (microfilme, meios digitais etc.) somadas às de circulação. Assim, a realidade documentada pode ser apreciada a qualquer tempo.

Hipercontato

Sempre que o contato não é presencial, ele é hiperficial.

Há mais possibilidades de contato com um maior número de pessoas ao mesmo tempo, de mais tipos de contato. Mas os contatos tradicionais são fragilizados, pois não há contato físico presencial. Pela rede, ou pelo telefone, pode-se ter uma conversa com dezenas de pessoas, mas não se pode abraçar nenhuma. Pode-se conhecer ou manter contato com alguém completamente fora do seu horizonte de vivência tradicional, mas nunca será possível uma troca de carinhos. Pode-se mandar uma mensagem de saudade durante a madrugada e até se receber uma resposta imediata, mas nunca um beijo de boa noite.

Na hiperrealidade, é evidente a relação inversa entre qualidade e quantidade: quanto mais se pode, menos se pode.

A palavra

O termo hiperfície foi pensado por mim, Paulo Rená, em decorrência do meu contato com o termo hipermodernidade, que é definido por Gilles Lipovetsky como a intensificação da modernidade.

Procurando na internet, primeiro eu apenas havia localizado definições físico-químicas, relacionadas a um meio multi-superficial, ou seja, com várias superfícies, ou algo do tipo.

Até hoje (31/12/07), o Google não dá respostas para a procura “define: hiperfície“, o mesmo valendo para “hyperface” e “hiperface“, palavras correspondentes em inglês.

O dicionário virtual Acronym Finder define hyperface como “hypermedial user interface” (interface hypermidiática do usuário), o que é uma definição satisfatória, mas que carece de alteridade. Em outras palavras, ela se centra no usuário individual, sem mencionar o contato interpessoal, sem considerar a existência do outro.

Encontrei um post sobre design, a respeito da interface urbana, que cita o arquiteto Stephen Perella como introdutor do termo hyperface, significando o ponto de encontro entre a arquitetura e a imagem, que atua como uma capa informativa em forma de texto, integrando os novos meio de comunicação, e cuja função é indicar os limites do espaço. Encontrei então no site da Faculdade de Humanidades da Universidade de Copenhagen um texto de 2002, sobre Hypersurface do Stephen Perella, presidente da HyperSurface Systems Inc. (que não posui site) e, que eu precisarei ler inteiro, porque não se limita à arquitetura. Começa falando da estatégia de marketing da Nike e em seguida cita Albert Einstein. Depois encontrei um livro, de 1997 (dez anos atrás) chamado Interfacing Realities, que tem o seguinte prefácio (livremente traduzido):

As redes de computador são um mundo virtual, paralelo a um mundo ‘verdadeiro’? Um super-autoestrada pode ser digital? Uma cidade pode ser digital? A Internet não passa de uma enorme projecção mental coletiva, construída com a ajuda de um grande número de metáforas (arquitetônicas)? Se a resposta para estas perguntas é afirmativa, nós – juntamente com esses autores – teremos que resolver uma série de questões essenciais. O quê isso significa para as cidades que habitamos agora? E se esta extensão tecnológica do espaço urbano tem tanto ‘efeito realidade’, estamos dispostos a nos lançar na Rede para compras, educação e até mesmo busca por dinheiro e felicidade? No final, vamos ter de metaforizar nós mesmos, com os nossos corpos tornando-se apenas uma protrusão da tela?

O mais interessante, do ponto de vista autopoiético (autoreprodutor), é que se não fosse a internet, eu não teria achado nada disso.

18 pensamentos sobre “O conceito

  1. Cara, que texto fantástico! Os conceitos deram forma a uma coleção de experiências bastante sutis. Mais ainda, acredito, pelo nível sensorial, que pelos campos da compreensão. Vê-se que o espaço e o tempo são apenas plataformas, o ser é um sistema de ideias.

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  12. Adorei o blog e o conceito de hiperfície
    quero saber se posso usar o texto e vc numa aula
    que tal?
    EStou o tempo inteiro em teatro falando sobre a qualidade da presença e de como a realidade cênica é criada a partir da verticalidade do ator com a realidade do papel…
    Bom falamos mais depois
    beijo

  13. Camila,

    The Sims e Second Life são bons exemplos, excelente exemplos de evidência da Hiperfície, de uma manifestação clara e nítida do contato hiperficial, distante mas de profundidade tendente ao infinito.

    Mas o legal é ver que esse mesmo contato, e portanto a Hiperfície, existe também no livro velho empoierado e esquecido no fundo de uma estante, no qual um parente antigo tenha deixado uma simples anotação na contracapa.

  14. Saudações, parceiro!
    Eu tava mesmo planejando aparecer aqui, me identificar, etc. Legal o seu blog, esse nome!
    A conceituação é muito interessante. Ainda não conheço o Lipovetsky, mas estudei autores correlatos, como o Bauman.
    Vamos nos falando.
    Abraço!

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